Pupunheira sem sintomas de podridão da base do estirpe. Foto: Eduardo Fuzitani

A pesquisa avaliou duas espécies do gênero Trichoderma, amplamente utilizado para controle biológico de doenças de plantas.
Os isolados de Trichoderma harzianum reduziram o avanço da doença em até 94%. Já os de Trichoderma asperellum diminuíram os sintomas em até 80%.

Aplicado 48 horas antes da infecção, o Trichoderma harzianum bloqueou totalmente a colonização do patógeno.
O estudo comprovou, pela primeira vez, a colonização interna da pupunheira por Trichoderma, sem causar danos à planta.
Os resultados indicam que o controle biológico pode reduzir o uso de fungicidas químicos, o que é especialmente importante porque o palmito é consumido in natura.

Pesquisadores brasileiros demonstraram o potencial de fungos do gênero Trichoderma para combater uma das doenças mais devastadoras da pupunheira, cultura estratégica para a produção de palmito no País. O estudo demonstrou que espécies como Trichoderma harzianum e Trichoderma asperellum conseguiram reduzir significativamente o avanço de Phytophthora palmivora, fungo responsável pela podridão da base do caule da pupunheira, considerada a pior ameaça à cultura.

Para Eduardo Jun Fuzitani, pesquisador da Apta Regional de Pariquera-Açu, no Vale do Ribeira, a pesquisa também trouxe um avanço metodológico importante: pela primeira vez, cientistas desenvolveram um sistema eficiente de inoculação, ou seja, de introdução controlada do fungo causador da doença e dos agentes de controle biológico em pedaços do caule da pupunheira para a realização dos testes. “A técnica permite simular a infecção em condições controladas de laboratório, reduzindo custos e acelerando estudos sobre o manejo da doença”, diz Fuzitani.

A pupunheira, identificada cientificamente como Bactris gasipaes, ganhou espaço no mercado brasileiro após a exploração predatória da juçara reduzir drasticamente os estoques naturais na Mata Atlântica. Desde então, o cultivo se expandiu principalmente nos estados de São Paulo e Bahia, além de áreas do Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Espírito Santo. A espécie apresenta vantagens econômicas importantes, como crescimento rápido, perfilhamento intenso e menor oxidação do palmito, permitindo inclusive a comercialização do produto in natura.

No entanto, como explica Álvaro Figueredo dos Santos, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e ex-pesquisador da Embrapa Florestas (PR), a expansão das áreas cultivadas resultou no aumento de doenças associadas ao monocultivo. Entre elas, destaca-se a podridão da base do caule, provocada por Phytophthora palmivora. O problema afeta tanto plantas jovens quanto adultas. Os sintomas começam com o amarelecimento das folhas e evoluem para a morte dos brotos. Nos casos mais graves, a doença pode destruir toda a planta.

Controle biológico: solução racional e sustentável

Santos destaca que ainda existem poucas opções de controle efetivo da doença, seja por fungicidas ou por variedades resistentes. Além disso, o uso intensivo de produtos químicos levanta preocupações ambientais e sanitárias, especialmente porque o palmito pode ser consumido cru. Nesse contexto, o controle biológico surge como alternativa sustentável e economicamente viável.

Wagner Bettiol, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente (SP), observa que os fungos do gênero Trichoderma são conhecidos por diferentes mecanismos de ação contra organismos causadores de doenças em plantas. “Eles competem por nutrientes, produzem substâncias antifúngicas, degradam a parede celular de agentes invasores e ainda estimulam mecanismos naturais de defesa das plantas. Algumas espécies também promovem crescimento vegetal e conseguem colonizar tecidos internos da planta sem causar danos, comportamento conhecido como endofitismo”, complementa.

Estratégias preventivas mostram melhores resultados
No estudo, quatro isolados comerciais foram avaliados: dois de Trichoderma harzianum e dois de Trichoderma asperellum. Os testes in vitro mostraram forte capacidade de inibição do crescimento do patógeno. Os isolados TH2 e TH1 de Trichoderma harzianum reduziram o crescimento de Phytophthora palmivora em 94% e 91%, respectivamente. Já os isolados TA2 e TA1 de Trichoderma asperellum apresentaram reduções de 80% e 61%.

Os resultados mais expressivos ocorreram quando os fungos antagonistas foram aplicados antes da inoculação do patógeno e conseguiram reduzir significativamente a severidade da doença. O isolado TH2 de Trichoderma harzianum apresentou os melhores índices de proteção, especialmente nos testes realizados 48 horas antes.

Em alguns casos, a colonização do patógeno foi totalmente bloqueada. Os pesquisadores observaram que o fungo benéfico ocupava rapidamente os tecidos internos da pupunheira, dificultando o estabelecimento de Phytophthora palmivora. Essa ocupação prévia parece ser determinante para o sucesso do controle biológico.

Os testes revelaram ainda diferenças importantes entre estratégias preventivas e curativas. Quando o Trichoderma foi aplicado após a infecção já estabelecida, os resultados foram menos eficientes. Embora tenha havido alguma redução nas lesões, o controle não foi comparável ao obtido nas aplicações preventivas.

Segundo Fuzitani, isso reforça a necessidade de programas de manejo antecipado da doença, priorizando aplicações preventivas em vez de intervenções tardias. O comportamento observado indica que, uma vez instalado no tecido vegetal, o patógeno se torna mais difícil de ser combatido.

Fungo mostra eficiência na colonização interna da planta

Outro resultado considerado inédito foi a comprovação da colonização endofítica dos tecidos da pupunheira pelos fungos antagonistas. Todos os isolados avaliados conseguiram penetrar internamente no caule da planta e crescer sem provocar sintomas negativos. Diferentemente das amostras infectadas por Phytophthora palmivora, que apresentaram tecidos escurecidos e podridão mole, os tecidos colonizados por Trichoderma permaneceram claros, firmes e saudáveis.

Os pesquisadores acreditam que essa capacidade pode representar um diferencial importante no manejo da cultura em campo. Como o fungo permanece dentro da planta, ele pode funcionar como uma espécie de barreira biológica contínua contra futuros ataques do patógeno.

Além do potencial de controle da doença, os autores destacam que produtos comerciais à base de Trichoderma já estão amplamente disponíveis no mercado brasileiro, o que facilitaria a adoção da tecnologia pelos produtores rurais. “Espécies como Trichoderma harzianum e Trichoderma asperellum estão entre os biofungicidas mais utilizados no mundo, especialmente por apresentarem múltiplos mecanismos de ação e baixo impacto ambiental”, afirma Bettiol.

Perspectivas futuras

A pesquisa também levanta perspectivas futuras relacionadas ao crescimento vegetal e à herança de características induzidas pelo Trichoderma. Estudos anteriores já demonstraram que plantas tratadas com determinadas espécies do fungo podem transmitir maior resistência a estresses e doenças para gerações seguintes.

No caso da pupunheira, essa possibilidade ganha relevância devido à característica de perfilhamento da cultura. Como a planta emite novos brotos continuamente, os cientistas acreditam que o uso de Trichoderma poderá contribuir não apenas para o controle da podridão da base do caule, mas também para o fortalecimento geral da plantação.

Os próximos passos da pesquisa incluem testes em condições de campo para validar os resultados observados em laboratório. Os cientistas pretendem avaliar o desempenho dos isolados comerciais em áreas produtivas, analisando tanto o controle da doença quanto possíveis efeitos sobre produtividade e desenvolvimento das plantas.

Para os pesquisadores, o controle biológico com Trichoderma representa uma estratégia promissora para tornar o cultivo da pupunheira mais sustentável, reduzir o uso de fungicidas químicos e minimizar perdas econômicas em uma cadeia produtiva cada vez mais importante para o agronegócio brasileiro.

O artigo

O artigo Eficiência de Trichoderma harzianum e Trichoderma asperellum no controle de Phytophthora palmivora in vitro e em estipe destacado de pupunheira foi publicado na revista Summa Phytopathologica e está disponível na plataforma SciELO Brasil.

Os autores são: Eduardo Jun Fuzitani, Erval Rafael Damatto Junior e Edson Shigueaki Nomura (Apta Regional); Álvaro Figueredo dos Santos e Luziane Franciscon Universidade Federal do Paraná – UFPR) e Wagner Bettiol (Embrapa Meio Ambiente).

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