Desenho, leitura de imagens e criação de histórias oferecem alternativas acessíveis para reduzir telas e aproximar a família.

As férias escolares de julho mudam o ritmo da casa. Sem as aulas, pais e responsáveis precisam conciliar trabalho, descanso e atividades capazes de entreter as crianças sem transformar o dia inteiro em TV e usar o celular. A ilustração pode ajudar porque reúne brincadeira, expressão e narrativa em propostas simples, feitas com papel, lápis, canetinhas ou materiais reaproveitados.

Guilherme Bevilaqua, ilustrador infantil e professor, considera que o desenho deve ser apresentado como uma linguagem aberta, sem ficar restrito a quem já demonstra habilidade. Nas férias, a atividade pode entrar na rotina sem o peso da avaliação escolar. “A criança não precisa desenhar bonito para aproveitar a ilustração. Ela precisa ter espaço para inventar, testar e transformar aquilo que imagina em imagem”, afirma.

A relação entre desenho e bem-estar infantil aparece em pesquisas acadêmicas. Um estudo publicado no periódico Psychology of Aesthetics, Creativity, and the Arts analisou o uso do desenho na regulação emocional de crianças e observou melhora de humor, sobretudo quando a atividade desviava a atenção de sentimentos negativos para uma criação prazerosa. 

A proposta não exige uma oficina complexa. Uma folha dobrada pode virar um livro de quatro páginas; caixas vazias podem se transformar em cenários; personagens conhecidos podem ganhar novas roupas, profissões ou aventuras. Depois de um passeio, a criança pode ilustrar o lugar de que mais gostou ou desenhar uma cena que gostaria de ter vivido. O ponto de partida orienta, mas o resultado deve permanecer aberto.

Outra possibilidade é aproximar desenho e leitura. Pais podem escolher um livro ilustrado, esconder a capa e pedir que a criança imagine a história a partir do título. Também vale criar um final diferente ou procurar detalhes que reaparecem nas páginas. A brincadeira estimula a observação e mostra que a ilustração conta partes da narrativa que não estão escritas.

Para crianças menores, formas, cores, colagens e desenhos livres costumam funcionar melhor do que instruções longas. As maiores podem produzir tirinhas, capas de livros inventados, diários visuais ou cartões-postais de lugares reais e imaginários. Irmãos de idades diferentes podem participar juntos, desde que tenham liberdade para resolver a proposta à própria maneira.

A participação dos adultos faz diferença, mas não precisa assumir a forma de correção. Comparar desenhos, apontar erros ou completar a imagem pela criança pode reduzir o interesse. Perguntas como “o que está acontecendo nessa cena?” ajudam a ampliar a história sem transformar a brincadeira em prova. “Quando o adulto demonstra curiosidade pelo desenho, a criança percebe que sua ideia tem valor. Isso fortalece a vontade de continuar criando e abre espaço para conversa”, explica o ilustrador.

A família também pode criar um livro coletivo, no qual uma pessoa começa a história e outra continua com uma imagem. Em viagens ou visitas a parques, o caderno de desenho funciona como registro afetivo. Nos dias de chuva, uma sequência de quadrinhos pode nascer de situações comuns da casa.

Não é preciso ocupar todas as horas nem apresentar uma proposta nova todos os dias. Manter materiais acessíveis e reservar pequenos períodos para desenhar permite que a criança retome ideias e conclua histórias. Ao fim das férias, os trabalhos podem formar uma pasta, um mural ou um livro artesanal, preservando um registro do período que vai além das fotografias do celular.

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