Nos 20 anos da Lei Maria da Penha, profissionais do HUGV-Ufam explicam impactos físicos e emocionais da violência e orientam sobre acolhimento e acesso à rede de proteção

Manaus (AM) – O Agosto Lilás, campanha nacional de enfrentamento à violência contra a mulher, reforça um aspecto que também merece atenção: a violência contra a mulher é uma questão de saúde. A identificação de sinais de violência e o acolhimento adequado podem contribuir para o acesso à rede de proteção e aos serviços de apoio.

A mobilização ocorre no contexto dos 20 anos da Lei nº 11.340/2006, a Lei Maria da Penha. Sancionada em 7 de agosto de 2006, a legislação criou mecanismos para prevenir e coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher e define cinco formas de violência: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.

Como parte das ações do Agosto Lilás, o HUGV-Ufam/HU Brasil promove, até o dia 14 deste mês, uma programação voltada a pacientes, acompanhantes, colaboradores e usuários da unidade. A iniciativa reúne orientações sobre prevenção da violência, direitos das mulheres e canais de apoio, com a participação de profissionais das áreas de Psicologia e Serviço Social e de uma advogada criminalista. As atividades ocorrem das 9h às 11h, no hall do hospital universitário e no Ambulatório Araújo Lima.

Marcas que nem sempre são visíveis

Nem toda violência contra a mulher deixa marcas visíveis. Ameaças, humilhações, controle, isolamento e outros comportamentos abusivos podem afetar a saúde física e emocional e, muitas vezes, ser naturalizados ou confundidos com comportamentos comuns dentro de uma relação.

Segundo a psicóloga do HUGV-Ufam/HU Brasil, Cynara Nogueira, um dos problemas é que alguns comportamentos podem ser inicialmente confundidos com manifestações de afeto. “Esses comportamentos costumam ser normalizados culturalmente como ‘ciúme’, ‘cuidado’ ou ‘amor intenso’, o que dificulta enxergá-los como abuso. Além disso, a violência psicológica geralmente é gradual: começa de forma sutil e vai se intensificando aos poucos”, explica.

Quando a violência se prolonga, os impactos podem alcançar diferentes aspectos da vida. “Há uma erosão progressiva da autoestima e da identidade pessoal. A mulher pode apresentar dificuldade de concentração e queda de desempenho no trabalho ou nos estudos, enquanto seus vínculos sociais e familiares vão se enfraquecendo”, acrescenta Cynara.

Saúde pode ser uma porta para identificar a violência

Muitas mulheres procuram os serviços de saúde pelas consequências físicas ou emocionais da violência sem necessariamente revelar o que estão vivendo. Por isso, esses espaços têm papel importante na identificação e no acolhimento.

Para a psicóloga Cynara, lesões recorrentes, sofrimento emocional, ansiedade, insônia e mudanças de comportamento podem servir de alerta. Situações em que o acompanhante insiste em permanecer durante todo o atendimento ou em que a mulher demonstra dificuldade para falar livremente também merecem atenção.

“É fundamental que esses profissionais de saúde estejam atentos a sinais indiretos, como lesões com explicações inconsistentes, problemas gastrointestinais, atraso em consultas, faltas recorrentes acompanhadas de um parceiro que insiste em estar presente durante toda a consulta, entre outros sinais físicos”, elenca.

Para a assistente social do HUGV-Ufam/HU Brasil, Patrícia Araújo, o atendimento precisa garantir escuta, respeito e privacidade. “No contexto hospitalar, nosso papel vai muito além de tratar a consequência física da violência. É também reconhecer a situação, acolher sem julgamento, orientar sobre direitos e contribuir para que essa mulher tenha acesso à rede de proteção e possa reconstruir sua autonomia e sua vida com segurança”, destaca.

Onde buscar ajuda

Ao identificar uma situação de violência, a mulher pode procurar serviços de saúde, Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, Defensoria Pública, Centros de Referência e outros serviços da rede de proteção.

“Procurar ajuda não significa necessariamente estar pronta para denunciar. O acolhimento, a informação e a orientação também são formas fundamentais de proteção e podem ajudar a mulher a compreender seus direitos e decidir, com segurança, quais caminhos deseja seguir”, explica Patrícia.

O Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) funciona gratuitamente, 24 horas por dia, para orientar sobre direitos e serviços especializados e receber denúncias. Em emergências ou situações de risco imediato, a recomendação é acionar a Polícia Militar pelo 190. Familiares, amigos ou vizinhos que presenciem violência doméstica também podem denunciar as situações aos órgãos competentes.

Sobre a HU Brasil

O HUGV-Ufam faz parte da Rede HU Brasil desde 2013. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.

Serviço – Agosto Lilás no HUGV-Ufam/HU Brasil

Data: 11 a 14 de agosto.

Horário: 9h às 11h.

Local: Hall do HUGV-Ufam e Ambulatório Araújo Lima.

Público: Pacientes, acompanhantes, colaboradores e usuários da unidade.

Programação: Orientações sobre prevenção da violência, direitos das mulheres e canais de apoio, com participação de advogada criminalista, psicóloga e assistentes sociais.

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