Com 28% do território nacional sob degradação, coalizão de empresas e ONGs defende que recuperação de ecossistemas ganhe escala como atividade econômica

O planeta conta atualmente com apenas 10,4% das áreas prometidas em restauração implementadas, totalizando cerca de 124,3 milhões de hectares sob ações de restauração, reabilitação ou gestão aprimorada. O dado, revelado pelo relatório “Global Land Restoration Achievement Database: 2026 Report”, lançado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) na Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (COP 17), expõe a distância que ainda existe para cumprir as metas globais de mais de 1 bilhão de hectares assumidas pelos países. 

A análise global aponta que 40% da superfície terrestre do planeta já está degradada, impactando diretamente a vida de mais de 3 bilhões de pessoas. Nesse cenário global alarmante, a América Latina apresenta sinais importantes de avanço. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a região conta com mais de 20 milhões de hectares sob processos de recuperação, com foco em áreas de florestas, agricultura e ecossistemas costeiros. O Brasil desponta como destaque ao lado de México e Colômbia.

A extensão das áreas degradadas gera severos impactos na vida das populações e da economia, ameaçando diretamente a segurança hídrica e alimentar. No Brasil, esse desafio é evidente: cerca de 28% do território nacional (2,3 milhões de km²) apresenta algum nível de degradação. Além disso, 39 milhões de brasileiros vivem em mais de 1.600 municípios situados em áreas suscetíveis à desertificação, sob o avanço do clima semiárido — que cresce cerca de 75 mil km² por década na Caatinga e no Cerrado.

Durante a COP 17, o Brasil apresentou sua Meta Voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN) para 2030. O compromisso prevê recuperar ou restaurar mais de 163 mil km² de áreas degradadas até o fim da década, por meio de ações que incluem recuperação da vegetação nativa, sistemas agroflorestais, unidades de conservação, Territórios Indígenas, áreas de preservação permanente e bacias hidrográficas. Outros 3,51 milhões de km² estão contemplados em ações de prevenção, conservação e manejo sustentável. Ao todo, as 17 submetas apresentadas pelo país abrangem 3,67 milhões de km². 

A restauração como  agenda estratégica 

A agenda de restauração se estabelece como uma interseção entre as três conferências da ONU: a Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD), a Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima (UNFCCC) e a Convenção de Combate à Desertificação (UNCCD). Solos saudáveis estocam carbono, protegem a biodiversidade, garantem a resiliência produtiva do campo contra eventos extremos e estabilizam os ciclos de bacias hidrográficas críticas.

Para Tainah Godoy, coordenadora de Relações Institucionais da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, os dados da IUCN evidenciam que a restauração precisa ser integrada a uma visão sistêmica:

“Os números globais mostram que ainda existe uma distância muito grande entre os compromissos assumidos e a restauração efetivamente implementada”, alerta. “Ao mesmo tempo, o Brasil já reúne conhecimento, organizações e experiências concretas que podem colocá-lo em posição de destaque nessa agenda. A restauração pode ser a solução que conecta diretamente os desafios de desertificação, biodiversidade e clima. O próximo passo é transformar essa experiência em escala.” 

No Brasil, um dos passos fundamentais nesse processo é saber quanto, onde e como o país está restaurando. O Observatório da Restauração, plataforma ligada à Coalizão Brasil, cumpre esse papel ao reunir, qualificar e dar transparência a informações sobre iniciativas conduzidas no território brasileiro. 

O Observatório já reúne dados reportados de mais de 200 mil hectares em processo de restauração e trabalha em parceria com coletivos que atuam nos seis biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. A articulação permite aproximar informações produzidas no território de uma visão nacional sobre o avanço da atividade. 

“Não dá para dar escala ao que não se consegue enxergar. O Brasil precisa saber onde a restauração está acontecendo, quem está fazendo e quais resultados estão sendo entregues. Quando esses dados aparecem, a restauração deixa de ser um conjunto de iniciativas isoladas e passa a ser uma agenda capaz de orientar políticas públicas, atrair investimentos e movimentar uma nova economia”, afirma Godoy.

Entre os coletivos parceiros está a Araticum, a Articulação pela Restauração do Cerrado, parceira do OR. A iniciativa “Araticum – Restauração do Cerrado Brasileiro” foi oficialmente consagrada pela ONU durante a COP 17 como uma das Referências da Restauração Mundial (World Restoration Flagship).

Articulando mais de 180 organizações do setor público e privado, a Araticum já mapeou 27 mil hectares em restauração ativa e estruturou uma cadeia de sementes nativas com mais de 150 espécies do Cerrado. A meta da rede é alcançar 2 milhões de hectares sob restauração até 2030. 

Carol Sacramento, secretária executiva da Araticum, enfatizou a presença da sociedade civil na conferência e os passos seguintes para a implementação das metas: “Essa COP marcou um protagonismo histórico das comunidades tradicionais, que sofrem os maiores impactos e lutam na linha de frente em seus territórios. Nosso papel agora é trabalhar em articulação direta com o governo e a sociedade civil para tirar do papel a ambiciosa meta brasileira de Neutralidade da Degradação da Terra”, ressalta. 

Representando mais uma das redes regionais na COP 17, Pedro Sena, conselheiro executivo da Rede para Restauração da Caatinga (ReCaa), assinala que o sucesso das metas depende da conexão direta com as comunidades locais: “A meta nacional de neutralidade serve como uma baliza para as ações locais e regionais, integrando desde o combate direto à degradação via restauração até práticas complementares, como a agroecologia e o manejo integrado do fogo”, explica Sena. 

“A partir de agora, nosso foco deve ser traduzir esse compromisso em campo e garantir que ele seja monitorado de perto, para que possamos avaliar e entender, ano a ano, como estamos evoluindo em relação aos nossos compromissos de conservação do solo”.

Sobre a Coalizão

Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura é um movimento composto por mais de 400 organizações, entre entidades do agronegócio, empresas, organizações da sociedade civil, setor financeiro e academia. A rede atua por meio de debates, análises de políticas públicas, articulação entre diferentes setores e promoção de iniciativas que contribuam para a conservação ambiental e o desenvolvimento socioeconômico do Brasil.

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