Pesquisa da Associação Brasileira de Psiquiatria revela avanço do sofrimento emocional entre brasileiros; especialista destaca que práticas artesanais podem auxiliar no cuidado da saúde mental
Aos poucos, os dias parecem perder o brilho, as atividades antes prazerosas ficam opacas e o estresse passa a ocupar cada vez mais espaço nos pensamentos. Sem perceber, a pessoa pode estar atravessando um período de intenso sofrimento emocional. É justamente por isso que o Setembro Amarelo reforça a importância de ampliar o diálogo sobre saúde mental. Pesquisa nacional realizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em 2025 apontou que 25,2% dos brasileiros afirmam não se sentir bem atualmente, e 30,9% se consideram tristes ou decepcionados, mas ainda mantêm esperança de melhora.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 301 milhões de pessoas convivem com transtornos de ansiedade, e aproximadamente 280 milhões vivem com depressão, condições frequentemente associadas ao sofrimento emocional e que demandam atenção, acolhimento e tratamento adequado. Embora os indicadores sejam preocupantes, a pesquisa da ABP aponta avanços na conscientização da população. Mais da metade dos entrevistados, 50,9%, afirmou já ter buscado atendimento com psicólogos ou psiquiatras e estar em acompanhamento especializado. O resultado é visto pela entidade como um reflexo da crescente compreensão sobre a importância da prevenção e dos cuidados relacionados à saúde mental.
Além do acompanhamento profissional, especialistas ressaltam que hábitos capazes de proporcionar relaxamento, prazer e conexão com o momento presente podem contribuir para a promoção do bem-estar emocional. Entre as práticas que ganham espaço estão atividades manuais como crochê, tricô, bordado e amigurumi. Segundo o psiquiatra do Hospital Santo Antônio, Lucas Pecker de Azambuja, o envolvimento com tarefas artesanais favorece a atenção concentrada e pode ajudar a reduzir ciclos de preocupação excessiva. “As atividades manuais envolvem atenção, concentração e a realização de uma tarefa, ajudando a pessoa a direcionar o foco para o momento presente. Em períodos de ansiedade e estresse, é comum que a mente permaneça ocupada por preocupações e pensamentos repetitivos. Uma atividade manual pode ajudar a interromper esse ciclo de ruminação”, explica.
O especialista destaca que os benefícios também podem ser percebidos em pessoas que enfrentam sintomas depressivos. “A depressão frequentemente leva à perda de interesse, à redução da iniciativa e ao afastamento de experiências que anteriormente proporcionavam prazer. Conseguir iniciar uma tarefa, acompanhar a evolução do trabalho e chegar a um resultado concreto pode favorecer sentimentos de satisfação, competência e autoestima”, afirma.
De acordo com o médico, atividades como crochê e tricô reúnem características que estimulam a presença e a percepção dos próprios avanços, pois são trabalhos que exigem coordenação entre as mãos e atenção, possuem movimentos repetitivos e permitem acompanhar visualmente aquilo que está sendo produzido. “Essa combinação pode favorecer um estado de concentração no presente e funcionar como uma pausa das preocupações cotidianas”, observa.
Outro aspecto importante está relacionado à sensação de realização, já que a pessoa começa com um fio e percebe gradualmente algo sendo construído pelas próprias mãos. “Essa experiência pode gerar sentimento de produtividade, domínio de uma habilidade e valorização pessoal, aspectos especialmente relevantes em momentos de desmotivação ou baixa autoestima”, acrescenta.
Quando desenvolvidas em grupo, essas práticas ainda podem favorecer a convivência, a troca de experiências e o fortalecimento de vínculos sociais, fatores reconhecidos como importantes para a qualidade de vida emocional.
Mudança de comportamento
A busca por atividades ligadas ao autocuidado também vem sendo observada por diferentes setores da economia. O relatório Consumidor do Futuro 2026, da WGSN, aponta o crescimento de consumidores que procuram desacelerar, reduzir a sobrecarga da rotina e investir em experiências capazes de proporcionar bem-estar, criatividade e satisfação pessoal.
Essa mudança de comportamento também foi identificada pela Círculo, referência em produtos para atividades manuais e artesanato, em uma pesquisa realizada em 2026. Entre pessoas sem experiência prévia com trabalhos manuais, 100% afirmaram que comprariam ou considerariam adquirir um kit voltado para iniciantes. O levantamento mostrou ainda que 70,6% dos entrevistados associam o interesse pelo artesanato ao desejo de relaxar e aliviar o estresse.
“Temos observado um movimento crescente de valorização de atividades relacionadas ao bem-estar, à criatividade e ao autocuidado. O artesanato oferece uma experiência que convida à desaceleração, à concentração e à conexão com o momento presente. Mais do que produzir uma peça, muitas pessoas buscam um hobby que proporcione satisfação, aprendizado e uma pausa em meio à rotina acelerada”, afirma o CEO da Círculo, Osni de Oliveira Junior.
Para o executivo, esse comportamento foi um dos fatores que motivaram a empresa a desenvolver iniciativas voltadas a novos públicos. “Percebemos que existia uma parcela significativa de pessoas interessadas em experimentar atividades manuais, mas que não sabia por onde começar. A criação da linha Meu Primeiro Hobby surgiu justamente a partir dessa observação de mercado e da compreensão de que o fazer manual pode ser uma porta de entrada para experiências relacionadas ao bem-estar, à presença e ao desenvolvimento de novos hábitos”, destaca.
Nesse contexto, a linha foi desenvolvida com kits pensados especialmente para quem quer descobrir o universo do artesanato de maneira simples e acessível. Com tutoriais em vídeo e passo a passo fácil de acompanhar, a proposta é permitir que qualquer pessoa, mesmo sem experiência, possa experimentar técnicas como crochê, bordado e amigurumi, respeitando seu próprio ritmo e sua disponibilidade. Assim, o primeiro contato com o fazer manual se torna mais leve, prazeroso e possível, sem a sensação de que criar algo bonito é difícil demais para quem está começando.
Especialistas ressaltam, porém, que atividades prazerosas devem ser vistas como estratégias complementares de cuidado, e não como substitutas do acompanhamento profissional. Diante de sintomas persistentes de ansiedade, depressão ou sofrimento emocional, a orientação é procurar avaliação especializada o mais cedo possível.
Sobre a Círculo
A empresa é a maior fabricante de fios para trabalhos manuais da América Latina e desenvolve produtos e acessórios para artesanato. Há 88 anos no mercado, tem cerca de 1,5 mil colaboradores ativos na empresa, exporta para mais de 60 países e é a marca com maior atuação do segmento no país. Conta com milhares de produtos em seu mix e, através do Time de Artesãos, oferece suporte na educação e profissionalização do artesanato, com workshops em todo o Brasil e em Portugal. Ela também incentiva quem pratica o trabalho manual como hobby, oferecendo e-books gratuitos, aplicativo próprio e publicações especializadas em tricô, crochê, amigurumi e bordado.
Sobre o Hospital Santo Antônio
Fundado em 1860, o Hospital Santo Antônio é uma instituição filantrópica, mantida pela Fundação Hospitalar de Blumenau, entidade privada e sem fins lucrativos. Referência para 53 municípios de Santa Catarina e entre os 25 melhores hospitais do Brasil, segundo a plataforma DRG Brasil, pelo Percentil Clínico, o Hospital Santo Antônio se destaca pela atuação em diversas especialidades e procedimentos de alta complexidade, como oncologia clínica e pediátrica, hematologia, radioterapia, braquiterapia, cirurgia oncológica, neurocirurgia pediátrica, cirurgia bariátrica, ortopedia oncológica, ortopedia e traumatologia, gestação de alto risco, cirurgia cardíaca pediátrica eletiva e cirurgia HIPEC.
Atualmente, o Hospital Santo Antônio de Blumenau conta com uma estrutura física de 18.000 m², com 260 leitos hospitalares, 9 salas cirúrgicas, sendo 7 no Centro Cirúrgico e 2 no Centro Obstétrico, além de 24 leitos de SRPA, 8 leitos de pré-parto e 2 salas PPP (Pré-parto, Parto e Pós-parto). A estrutura de terapia intensiva conta com 20 leitos de UTI Adulto, 20 leitos de UTI Neonatal e 10 leitos de UTI Pediátrica, garantindo suporte especializado e assistência de alta complexidade à população atendida.
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