Sinergia Animal questiona transparência de compromisso anunciado pelo grupo e cobra informações sobre rastreabilidade da cadeia de fornecedores; Casa do Pão de Queijo é a única marca do grupo com novo plano público e detalhado de transição

O Grupo Trigo afirmou ter concluído 100% de sua transição para ovos provenientes de sistemas livres de gaiolas. Mas uma pergunta permanece sem resposta: 100% de quê?

A afirmação, reportada pelo grupo ao EggLab, plataforma de monitoramento de compromissos corporativos com ovos cage-free, não vem acompanhada de informações públicas suficientes para esclarecer se a política contempla também produtos de terceiros comercializados por suas marcas e se existe rastreabilidade sobre a origem dos ovos utilizados nesses produtos.

Para a Sinergia Animal, existe uma diferença fundamental entre afirmar que uma empresa utiliza exclusivamente ovos cage-free em seus produtos próprios e afirmar que 100% da cadeia de abastecimento do grupo está livre de gaiolas.

“Uma política cage-free só é realmente 100% quando a empresa consegue demonstrar que o critério vale para toda a sua cadeia de abastecimento, inclusive para produtos e ingredientes adquiridos de terceiros. Se uma parte dessa cadeia não é rastreada, o consumidor precisa saber disso. Transparência não pode significar divulgar apenas a parte que a empresa consegue controlar diretamente”, afirma Cristina Diniz, diretora geral da Sinergia Animal no Brasil.

Uma promessa feita há quase uma década

Em 2016, o Grupo Trigo anunciou publicamente uma política para eliminar ovos provenientes de galinhas confinadas em gaiolas de toda a cadeia produtiva de suas marcas, com prazo de implementação até 2025 ou antes. Na época, o grupo controlava marcas como Spoleto, Koni Store e Domino’s Pizza. 

O compromisso foi apresentado como uma política de compras que envolveria produtores e fornecedores e alcançaria toda a cadeia das marcas.

Hoje, quase dez anos depois, o grupo afirma ter concluído sua transição. Entretanto, quando questionado sobre a abrangência dessa declaração, a empresa não esclarece publicamente se ela inclui produtos de terceiros comercializados por suas marcas.

Uma empresa de alimentação pode comprar ovos diretamente de um fornecedor e ter mecanismos para rastrear sua origem. Mas também pode comprar produtos industrializados, ingredientes processados ou itens prontos que contenham ovos.

Nesse segundo caso, dizer que “100% dos ovos utilizados” são cage-free exige muito mais do que simplesmente conhecer os fornecedores diretos de ovos.

Exige rastreabilidade da origem do ingrediente.

O que significa ser “100% cage-free”?

O próprio EggLab define seu trabalho justamente a partir dessa necessidade de transparência.

A plataforma monitora compromissos públicos de empresas para consumir e comercializar apenas ovos livres de gaiolas e coleta informações sobre a origem dos ovos e derivados consumidos ou vendidos pelas empresas, além de acompanhar os reportes públicos sobre a implementação dessas políticas. 

O EggLab também destaca que compromissos públicos geram uma obrigação de transparência sobre avanços, desafios e estratégias de implementação. 

É justamente nesse ponto que a Sinergia Animal questiona o Grupo Trigo. Se a empresa declara 100% de implementação, mas não esclarece publicamente se consegue rastrear produtos de terceiros, como consumidores, investidores e organizações podem verificar o que esses “100%” realmente significam?

Não se trata apenas de uma discussão sobre números, mas de accountability corporativo.

Casa do Pão de Queijo expõe a diferença entre compromisso e declaração

A situação da Casa do Pão de Queijo ajuda a tornar a questão ainda mais evidente.

Depois de um longo processo de diálogo e pressão conduzido pela Sinergia Animal, o Grupo Trigo assinou em julho um compromisso específico para a marca.

O documento estabelece que a Casa do Pão de Queijo deverá utilizar exclusivamente ovos provenientes de sistemas livres de gaiolas em seus produtos próprios e de terceiros. Para os produtos próprios, a meta é chegar a 100% até dezembro de 2029. Para produtos de terceiros comercializados pela marca, o prazo é dezembro de 2030. 

O plano ainda determina metas intermediárias de 25%, 50%, 75% e 100% e prevê reporte periódico no EggLab. 

Ou seja: quando existe um compromisso verificável, é possível saber exatamente o que está sendo prometido, para quando e como será acompanhado.

É justamente esse nível de clareza que a Sinergia Animal cobra do Grupo Trigo em relação às demais marcas.

Outras empresas estão adotando compromissos mais amplos

O mercado brasileiro já possui exemplos de empresas que explicitam o alcance de suas políticas.

O Grupo Pão de Açúcar, por exemplo, ampliou seu compromisso originalmente restrito a marcas próprias para estabelecer que 100% dos ovos vendidos em suas lojas, independentemente da marca, sejam provenientes de galinhas livres de gaiolas até 2028. A empresa afirma também trabalhar diretamente com sua cadeia de fornecedores para viabilizar a transição. 

A Sodexo, por outro lado, publica um percentual de implementação em vez de simplesmente declarar uma transição concluída: em 2026, informou que 94% dos ovos utilizados em suas operações no Brasil já eram cage-free, com meta de chegar a 95% até o final do ano. 

Esse tipo de divulgação permite uma comparação objetiva entre o que já foi alcançado e o que ainda falta.

É exatamente esse tipo de informação que a Sinergia Animal gostaria de ver no Grupo Trigo.

“Não estamos questionando a importância dos avanços que o Grupo Trigo possa ter feito. Estamos questionando a falta de clareza sobre o alcance de uma declaração de 100%. Se existem produtos de terceiros que não são rastreados, isso precisa estar explícito, conclui Cristina.

Quando o compromisso é voluntário, a transparência precisa ser ainda maior

Os compromissos corporativos de bem-estar animal são, em grande parte, voluntários.

No caso dos ovos cage-free, não existe hoje uma regra federal específica que obrigue empresas de alimentação a apresentar ao consumidor uma auditoria independente comprovando que 100% dos ovos utilizados ou comercializados são provenientes de sistemas livres de gaiolas. A legislação brasileira possui normas gerais de proteção e bem-estar animal e o Ministério da Agricultura mantém materiais técnicos específicos sobre sistemas de criação de galinhas poedeiras, mas a transição cage-free das empresas ocorre principalmente por compromissos voluntários e políticas de cadeia de abastecimento. 

É justamente por isso que um compromisso público não pode ser tratado como uma peça de marketing sem prestação de contas.

Quando uma empresa anuncia uma meta voluntária, ela cria uma expectativa legítima de transparência junto a consumidores, organizações da sociedade civil e demais públicos interessados.

O próprio EggLab define seus processos de acompanhamento como uma forma de monitorar compromissos corporativos e estimular a transparência sobre sua implementação. 

O compromisso da Casa do Pão de Queijo é um avanço. Agora, falta transparência sobre o grupo.

A Sinergia Animal reconhece o compromisso firmado para a Casa do Pão de Queijo como um avanço concreto. Pela primeira vez, existe um documento que estabelece metas progressivas, prazos para produtos próprios e de terceiros e mecanismos de acompanhamento público. 

O avanço da pauta cage-free mostra que compromissos voluntários podem produzir mudanças concretas. Mas também evidencia uma lacuna importante: a ausência de mecanismos robustos e independentes de verificação deixa grande parte da responsabilidade nas mãos das próprias empresas. 

Nesse cenário, a transparência não pode ser opcional nem limitada aos resultados mais convenientes de comunicar. Se o setor quer que seus compromissos sejam levados a sério, precisa aceitar que eles sejam acompanhados, questionados e, sobretudo, comprovados. 

Sobre a Sinergia Animal

A Sinergia Animal é uma organização internacional que atua na América Latina e na Ásia para transformar as cadeias de produção de alimentos e melhorar as condições de vida de animais criados para consumo. A organização trabalha com empresas, governos e outros atores para promover políticas de transparência e mudanças estruturais que eliminem o sofrimento animal das cadeias de abastecimento.

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