Após morte de jovem atacado por tigre na Inglaterra, especialistas discutem como emoções, percepção de perigo e tomada de decisão influenciam atitudes extremas

A morte de William Chapman, de 23 anos, após entrar no recinto de um tigre em um parque de animais na Inglaterra, reacende uma discussão sobre os fatores que levam uma pessoa a se expor a situações de perigo. O episódio ocorreu em 10 de outubro, no Yorkshire Wildlife Park, e ganhou repercussão internacional depois que a família revelou um histórico de problemas graves de saúde mental. Embora essa informação tenha levantado questionamentos sobre o comportamento do jovem, especialistas alertam que não é possível estabelecer uma relação direta entre transtornos mentais e atitudes de risco sem compreender as circunstâncias envolvidas.

Para a psicóloga Êdela Nicoletti, especialista em Terapia Comportamental Dialética (DBT), a tentativa de encontrar uma explicação imediata para comportamentos extremos pode levar a interpretações equivocadas e reforçar preconceitos relacionados à saúde mental.

“Nem todo comportamento de risco é impulsivo, nem toda impulsividade decorre de um transtorno mental e nem todo comportamento aparentemente incompreensível representa uma intenção de morrer”, afirma.

A especialista explica que estados emocionais intensos, dificuldades de regulação emocional e alterações na avaliação das consequências podem influenciar a tomada de decisão. Entretanto, esses processos não se manifestam da mesma maneira em todas as pessoas e não permitem determinar, isoladamente, as razões de um comportamento.

Uma mesma atitude pode ter diferentes motivações, dependendo da história individual, do contexto e das consequências que a pessoa espera ou experimenta ao agir. Por isso, compreender um comportamento exige uma análise que vai além daquilo que é possível observar externamente.

Na Terapia Comportamental Dialética, abordagem psicológica baseada em evidências, um dos recursos utilizados para essa compreensão é a análise funcional. A ferramenta investiga os acontecimentos que antecedem determinado comportamento, as emoções, os pensamentos, as condições envolvidas e as consequências da ação.

“A DBT nos ensina algo muito importante: antes de tentar modificar um comportamento, precisamos compreender sua função. E compreender não significa justificar, assim como reconhecer o sofrimento não significa presumir um diagnóstico”, explica Êdela.

“Quando observamos uma atitude de risco, é comum que a primeira interpretação seja a de impulsividade. Mas o comportamento humano é mais complexo. Precisamos considerar o contexto, as emoções presentes, a forma como a pessoa avalia o perigo e as consequências que antecipa. Sem essas informações, qualquer tentativa de explicar uma situação específica permanece no campo das hipóteses”, explica o psicólogo Vinícius Dorneles, mestre em Psicologia na área de Cognição Humana e especialista em DBT.

A DBT trabalha com habilidades de regulação emocional, tolerância ao mal-estar, atenção plena e efetividade interpessoal. Esses recursos ajudam pessoas com dificuldades emocionais e comportamentais a desenvolver respostas mais eficazes diante de situações desafiadoras.

“Uma emoção intensa pode influenciar a maneira como avaliamos uma situação, mas sentir uma emoção forte não significa necessariamente perder o controle ou agir impulsivamente. Na DBT, buscamos desenvolver habilidades para reconhecer o que acontece internamente, avaliar as possibilidades e escolher respostas que reduzam riscos e favoreçam objetivos de longo prazo”, acrescenta Vinícius.

No caso de William Chapman, a família informou que ele convivia havia anos com problemas importantes de saúde mental e fazia uso de medicamentos. Entretanto, os próprios familiares ressaltaram que cabia às autoridades responsáveis pela investigação determinar se esses fatores tinham alguma relação com sua morte.

Para Êdela, esse cuidado também deve orientar a maneira como casos semelhantes são discutidos publicamente. A existência de sofrimento psicológico não permite presumir um diagnóstico específico, uma intenção suicida ou uma relação causal com o comportamento observado.

A especialista defende que episódios de grande repercussão podem contribuir para ampliar o conhecimento da população sobre saúde mental, desde que a discussão esteja fundamentada em evidências e respeite os limites do que realmente se sabe.

Mais do que buscar explicações imediatas para atitudes aparentemente incompreensíveis, a reflexão proposta pelos especialistas é compreender como os comportamentos humanos se desenvolvem e por que interpretações precipitadas podem dificultar tanto o cuidado em saúde mental quanto o enfrentamento do estigma.

Sobre os especialistas

Êdela Nicoletti é psicóloga, especialista em Terapia Comportamental Dialética (DBT) e Terapia Cognitivo-Comportamental. Possui certificação em transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), é diretora do CTC Veda, mentora e tutora do Programa de Proficiência em Terapia Cognitiva e professora honorária da equipe formadora do Instituto Nora Cavaco, em Portugal.

Vinícius Dorneles é mestre em Psicologia, na área de Cognição Humana, e especialista em Terapia Comportamental Dialética pela Behavioral Tech, em Seattle, nos Estados Unidos, e pela Universidade de Luján, na Argentina. Possui formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e em terapias baseadas em evidências para o transtorno de personalidade borderline pela Fundación Foro, na Argentina.

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