As recentes pesquisas eleitorais indicam que a campanha de Lula chegou a um platô político, enfrentando dificuldades para ampliar sua vantagem sobre Flávio Bolsonaro. O cenário se desenha após uma série de medidas econômicas e compromissos fiscais que pressionam o orçamento de 2027, colocando em questão os limites da racionalidade econômica diante dos imperativos da disputa eleitoral. Nesse contexto, Lula, em uma espécie de exercício de rei-filósofo, procura mobilizar uma racionalidade política capaz de conduzi-lo à quarta vitória eleitoral e à segunda reeleição.
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro representaria um novo capítulo da cultura política de direita fortalecida a partir de 2016. Diante das dificuldades de ampliar seu eleitorado, Lula procura modificar sua estratégia nos últimos dias da campanha, radicalizando o discurso e intensificando a mobilização militante. O movimento guarda semelhanças com a postura assumida pelo bolsonarismo após a derrota de 2022, quando a preservação da identidade política e da mobilização de sua base se tornou fundamental. A disputa ultrapassa, portanto, a conquista imediata do governo e passa a envolver a sobrevivência de projetos políticos que precisam se reinventar diante de seus próprios limites.
É nesse ponto que a filosofia platônica oferece uma chave interpretativa. A tensão entre o mundo das ideias e o mundo sensível permite compreender a distância entre os horizontes políticos idealizados pelos candidatos e as contradições concretas da realidade. De um lado, Lula procura preservar o lulismo por meio de uma narrativa que projeta um ideal de transformação social e resistência política. De outro, Flávio Bolsonaro precisa converter o capital eleitoral acumulado em uma proposta capaz de ultrapassar os limites de sua própria identidade política.
Para Flávio, isso significa buscar a moderação e evitar que a radicalização comprometa a construção de uma maioria política mais ampla. Os episódios que marcaram as vésperas das eleições de 2022, entre eles as ações de Carla Zambelli, demonstram como acontecimentos protagonizados por aliados podem interferir na dinâmica de uma campanha. A ampliação dos apoios declarados nas redes sociais, por sua vez, tornou-se um instrumento para disputar a atenção pública e contrapor a mobilização obtida por Lula no início do segundo turno. Enquanto Flávio procura transmitir uma imagem mais moderada, Lula mobiliza seus recursos políticos para questionar a legitimidade da candidatura adversária, inclusive por meio de acusações relativas ao uso de algoritmos nas redes sociais.
O desafio de um eventual governo Flávio Bolsonaro será amortecer esses conflitos e construir condições para uma maior união nacional. Os acenos a adversários e a interlocutores de outros campos políticos podem indicar essa tentativa, mas a transformação exige mais do que ajustes discursivos: pressupõe uma metamorfose do próprio bolsonarismo.
Paralelamente, a campanha de Lula apresenta sinais de retorno a uma estratégia de mobilização que remete ao PT anterior a 2002, com maior ênfase na identidade partidária e na capacidade de convocar sua militância. A frente ampla, que caracterizou parte de sua trajetória recente, convive com a possibilidade de uma frente mais concentrada em torno do próprio partido. Esse movimento também expressa uma transformação: a tentativa de recuperar uma força de mobilização social capaz de sustentar o projeto político para além das alianças institucionais.
A democracia brasileira poderá, portanto, ingressar em uma nova etapa, na qual a disputa não se limitará à alternância de poder, mas envolverá a redefinição das estratégias de mobilização, das identidades partidárias e das relações entre governo e oposição. Entre o platô político de Lula e a necessidade de transformação do bolsonarismo, a derrota platônica não consiste simplesmente no fracasso de um ideal, mas na dificuldade de fazê-lo sobreviver ao confronto com o mundo sensível. Resta saber quais projetos conseguirão traduzir suas ideias em práticas políticas duradouras. A democracia brasileira encontrará, assim, um labirinto que deverá ser desvendado nos próximos anos.
O conteúdo dos artigos assinados não representa necessariamente a opinião do Mackenzie.
Sobre os Colégios Presbiterianos Mackenzie
Os Colégios Presbiterianos Mackenzie são reconhecidos, hoje, pela qualidade no ensino e educação que oferecem aos seus alunos, enraizada na antiga Escola Americana, fundada em 1870, pelo casal George e Mary Chamberlain, em São Paulo. A instituição dispõe de unidades em São Paulo, Tamboré (em Barueri-SP), Brasília (DF) e Palmas (TO). Com todos os segmentos da Educação Básica – Educação Infantil (Maternal, Jardim I e II), Ensino Fundamental e Ensino Médio, procura o desenvolvimento das habilidades integrais do aluno e a formação de valores e da consciência crítica, despertando o compromisso com a sociedade e formando um indivíduo capaz de servir ao próximo e à comunidade. No percurso da história, o Mackenzie se tornou reconhecido pela tradição, pioneirismo e inovação na educação, o que permitiu alcançar o posto de uma das renomadas instituições de ensino que mais contribuem para o desenvolvimento científico e acadêmico do País.







