Na comunidade Cabarí, Comitê de Enfrentamento à Violência Obstétrica identificou dificuldades no acesso ao pré-natal e articulou medidas de assistência às indígenas
A Defensoria Pública do Estado do Amazonas realizou, nesta quinta-feira (21/5), uma visita à comunidade indígena Cabarí, em São Gabriel da Cachoeira, para acompanhar a assistência prestada às gestantes indígenas da região. Durante a ação, foram identificadas dificuldades no acesso a exames básicos do pré-natal, falta de insumos e limitações estruturais que comprometem o acompanhamento adequado das mulheres durante a gestação.
A agenda integra as ações do Comitê de Enfrentamento à Violência Obstétrica, coordenado pela Defensoria Pública do Estado do Amazonas, juntamente com a Secretaria Municipal de Saúde, Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Telepnar (UFAM) e outros órgãos.
A defensora pública Caroline Souza destacou que a presença da comitiva foi fundamental para compreender, de perto, a realidade vivida pelas mulheres indígenas e identificar falhas na assistência ofertada. Na visita, a equipe acompanhou uma consulta de pré-natal e constatou a ausência de exames básicos e de insumos essenciais para o acompanhamento seguro da gestação das mulheres na região.
“O que a gente percebeu é que as equipes trabalham com o que têm, e eles têm muito pouco. Acompanhamos uma consulta de pré-natal e, por exemplo, o sonar, o aparelho para ouvir o coração, não funcionou. Elas não fazem hemograma na comunidade, somente se a gestação evoluir para uma situação mais grave, que necessita da ida ao hospital, na sede do município”, destacou a defensora.
Entre as medidas definidas para mitigar as dificuldades no atendimento, está a ampliação da realização de exames laboratoriais nas comunidades, com o fornecimento de insumos necessários para realizar os procedimentos disponibilizados pela Secretaria Municipal de Saúde, enquanto o DSEI ficará responsável pela logística de coleta e transporte do material até a sede do município.
“Foi importante reunir e sensibilizar os gestores. Eles trabalham com o que têm, mas têm muito pouco. É necessário que os poderes públicos voltem os olhos para São Gabriel da Cachoeira, porque os recursos são insuficientes para a demanda da população”, afirmou.
A enfermeira Silvania Lima da Silva, que atua há 18 anos na região, ressaltou a importância da presença da comitiva para dar visibilidade ao trabalho desenvolvido nas aldeias e às dificuldades enfrentadas pelas equipes de saúde.
“Atualmente, acompanho 22 gestantes apenas na área atendida pela equipe em Cabari e comunidades próximas. Mesmo diante das longas distâncias, das chuvas e das limitações estruturais, os atendimentos continuam sendo realizados regularmente. Os nossos pré-natais são feitos aqui, sempre com privacidade. Fazemos vacinação, visitas domiciliares e acompanhamos os pacientes acamados. A gente procura fazer o melhor com criatividade”, relatou.
Silvania também destacou a atuação conjunta com os conhecimentos tradicionais das parteiras e pajés da comunidade. “Eles me ensinam muito. Quando vejo que o parto não é para mim, a gente chama a parteira e faz um atendimento humanizado antes de encaminhar para São Gabriel”, explicou.
Moradora da comunidade, a jovem indígena Elisangela Ordones Fontes, de 21 anos e grávida de quatro meses, relatou que recebe acompanhamento da equipe de saúde desde o início da gestação. Segundo Elisangela, apesar de ter recebido atendimento, a experiência não ocorreu da forma como esperava.
“Agora, com o segundo filho, sigo realizando o pré-natal na comunidade, com apoio dos agentes de saúde locais”.
A visita à comunidade Cabari faz parte de uma série de ações promovidas ao longo da semana em São Gabriel da Cachoeira para fortalecer a assistência obstétrica, ouvir mulheres indígenas e discutir estratégias de enfrentamento à violência obstétrica e à mortalidade materna na região.
Audiência Pública
As defensoras públicas Caroline Souza e Suelen Paes participaram de uma audiência pública na Câmara Municipal de São Gabriel da Cachoeira, onde apresentaram um diagnóstico preliminar das principais demandas identificadas pelo Comitê de Enfrentamento à Violência Obstétrica ao longo dos dias de atividades no município.
Durante a audiência, foram destacados os desafios observados nas visitas às comunidades e unidades de saúde, especialmente relacionados ao acesso ao pré-natal, à falta de insumos e exames básicos, às limitações estruturais e à necessidade de fortalecimento da assistência materna às mulheres indígenas da região do Alto Rio Negro.
Texto e foto: Karine Pantoja – DPE/AM




