Pesquisa mostra que apenas 11% já ajustaram planejamento financeiro e sistemas para o novo modelo; mecanismo da Reforma Tributária deve movimentar cerca de R$ 6 trilhões por ano quando estiver plenamente implementado
Enquanto governo, bancos e instituições financeiras discutem o cronograma e a infraestrutura tecnológica necessária para colocar em funcionamento o split payment, uma parcela significativa das micro e pequenas empresas ainda tenta compreender o que a mudança representará para sua operação. Levantamento realizado pela GestãoClick com empresas brasileiras mostra que 77,1% dos respondentes nunca ouviram falar do mecanismo ou apenas ouviram falar superficialmente, sem conhecer seus detalhes. Apenas 22,8% afirmam saber exatamente como ele funciona.
A falta de conhecimento já se reflete no nível de preparação. Segundo a pesquisa, somente 11% afirmam ter ajustado o planejamento financeiro e os sistemas para o split payment. Outros 40,2% sabem que precisam se preparar, mas ainda não começaram; 16,5% dizem estar começando a se informar; e 32,3% admitem não saber por onde começar.
Os números surgem justamente quando o cronograma do mecanismo ganha espaço no debate sobre a Reforma Tributária. O split payment não estará disponível como inicialmente esperado para janeiro de 2027 e a previsão divulgada é de obrigatoriedade nas operações entre empresas a partir de 2028. O estudo da GestãoClick registra que a complexidade técnica envolve a integração de 229 instituições financeiras.
O mecanismo representa uma mudança estrutural na maneira como os tributos sobre o consumo chegam aos cofres públicos. No modelo, quando o cliente realiza um pagamento eletrônico, a parcela correspondente ao IBS e à CBS é separada durante a liquidação da transação e direcionada ao recolhimento dos tributos. A empresa recebe o valor líquido da operação. A legislação complementar já disciplina o procedimento de split payment e prevê a participação dos prestadores de serviços de pagamento eletrônico.
A dimensão tecnológica ajuda a explicar a complexidade da implantação. Segundo dados públicos compilados pelo estudo da GestãoClick, quando estiver em pleno funcionamento, o sistema poderá processar entre 1,3 bilhão e 1,5 bilhão de transações por ano e movimentar aproximadamente R$ 6 trilhões anuais. A infraestrutura precisará conectar 229 instituições financeiras, ante cerca de 30 participantes no atual ecossistema de arrecadação federal.
Para as pequenas empresas, entretanto, a principal preocupação identificada pela GestãoClick não está apenas na tecnologia necessária para implementar o mecanismo, mas no que acontece com o dinheiro disponível no caixa.
Hoje existe um intervalo entre o momento em que uma empresa recebe o pagamento por uma venda e o momento em que efetivamente recolhe determinados tributos. Esse período pode representar uma fonte temporária de liquidez na operação. Com o split payment, a separação dos tributos ocorre no fluxo do pagamento, alterando essa dinâmica financeira.
É justamente entre as microempresas que o receio de impacto no caixa aparece com maior intensidade. Segundo o levantamento, 41% das microempresas esperam prejuízo no fluxo de caixa, ante 22% dos MEIs. Nas pequenas empresas, esse percentual é de 35%, enquanto entre negócios de médio porte ou maiores chega a 30%. Dessa forma, o temor identificado entre as microempresas é 1,9 vez maior do que entre os MEIs.
“O adiamento não deve ser interpretado pelas pequenas empresas como um motivo para deixar o assunto para depois. O dado mais preocupante da pesquisa não é apenas que muitos empresários desconheçam o split payment, mas que quase um terço nem saiba por onde começar a se preparar. A mudança mexe diretamente na dinâmica do caixa, e planejamento financeiro e tecnologia precisam entrar nessa conversa antes da obrigatoriedade”, afirma Wesley Henrique, Head de Finanças e Administração da GestãoClick.
Quanto maior o conhecimento, menor a confiança
Outro resultado do levantamento chama atenção por uma aparente contradição. Ao comparar os respondentes provenientes da base de clientes da GestãoClick com o grupo captado no mercado geral, quem demonstrou maior conhecimento sobre o mecanismo também apresentou menor confiança em sua implementação.
Entre clientes da GestãoClick, a confiança média no split payment foi de 3,1 em uma escala de zero a dez, contra 5,4 entre os respondentes do mercado geral, uma diferença de 43%. Além disso, 65,4% dos clientes da plataforma atribuíram notas entre zero e três para sua confiança no mecanismo, ante 24,8% do mercado geral.
O contraste aparece também no nível de informação. Apenas 15,4% dos clientes da GestãoClick afirmaram nunca ter ouvido falar do split payment, enquanto esse percentual chega a 39,6% entre os demais participantes da pesquisa. Os resultados sugerem que maior familiaridade com gestão financeira pode estar associada a uma percepção mais cautelosa sobre os desafios da implementação, embora a pesquisa, por seu desenho, não permita estabelecer relação causal entre conhecimento e confiança.
“Há um dado interessante: justamente entre os empresários mais familiarizados com o tema encontramos maior cautela. Isso sugere que, quando o empreendedor começa a compreender como o split payment interfere na liquidação da venda e no capital de giro, a discussão deixa de ser exclusivamente tributária e passa a ser também financeira e operacional”, acrescenta Wesley Henrique.
Brasil prepara modelo de escala inédita
O tamanho do projeto brasileiro também diferencia a implementação das experiências internacionais analisadas no estudo.
Na Polônia, onde o mecanismo é obrigatório desde 2019, sua aplicação está concentrada em setores considerados de maior risco de fraude, como combustíveis, aço, sucata e eletrônicos. Na Itália, o modelo adotado desde 2015 está limitado principalmente às compras realizadas pelo setor público e grandes empresas estatais. Já o Reino Unido optou por não implementar um sistema geral de split payment para transações B2B comuns.
Segundo o estudo da GestãoClick, nenhuma das referências internacionais analisadas adotou um modelo universal com a escala pretendida no Brasil.
A complexidade tem também uma dimensão financeira. O estudo registra uma proposta de remuneração de R$ 0,39 por operação processada pelas instituições financeiras, por meio de crédito tributário corrigido pela Selic ao longo de dez anos. Estimativa citada no levantamento calcula, entretanto, custo real entre R$ 0,46 e R$ 0,61 por transação.
Mudança alcançará um universo de milhões de pequenos negócios
A preocupação com a preparação das empresas ganha dimensão quando considerada a estrutura empresarial brasileira. O estudo reúne dados segundo os quais o país possui aproximadamente 24 milhões de pequenos negócios ativos, entre MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte. Eles representam cerca de 95% das empresas brasileiras e 26,5% do PIB nacional.
Para a GestãoClick, a discussão sobre o split payment precisa, portanto, sair do campo exclusivamente tributário e tecnológico e chegar à gestão cotidiana das empresas.
A preparação envolve compreender como a retenção automática pode alterar o fluxo de caixa, revisar projeções de capital de giro, acompanhar a evolução das regras, adequar sistemas de gestão e manter maior integração entre as áreas financeira, fiscal e contábil.
A própria percepção dos empresários consultados demonstra que há expectativas positivas e negativas. Nas respostas abertas, há quem espere mais controle, transparência e simplificação da gestão financeira, mas também empresários preocupados com redução de caixa, necessidade de readequação do capital de giro, formação de preços e capacidade de adaptação das empresas.







