Estudos mostram que a idade da primeira menstruação caiu do século 19 para hoje, de 14 para cerca de 12 anos de idade
Há pouco mais de 150 anos, uma menina via a primeira menstruação surgir, em média, entre os 16 e os 17 anos. Hoje, esse marco chega, em média, aos 12 anos. Na Alemanha, por exemplo, a idade média da menarca caiu de 18 anos, no início do século XIX, para cerca de 12 ou 13 anos. Mas por que isso acontece?
O fenômeno se repete, com variações, em países como a Espanha, o Reino Unido, a China, a Coreia do Sul e também o Brasil, que registram, cada um a seu ritmo, o mesmo movimento de antecipação.
Em meninas negras, alguns estudos americanos observam sinais de desenvolvimento mamário e pilificação pubiana já entre os 6 e os 8 anos, sem que isso necessariamente configure um quadro patológico, o que tem levado a debates sobre a atualização dos parâmetros da puberdade precoce por etnia.
O que antes acontecia entre os 16 e os 18 anos passou a ser comum entre os 10 e os 12. A puberdade chega mais cedo em países como a Espanha, a China e até o Brasil. Mas o que explica esse fenômeno e por que é essencial um acompanhamento cuidadoso?
Parte da resposta está no estilo de vida moderno. O aumento da obesidade infantil, ocasionado pelo sedentarismo e pelo consumo de alimentos ultraprocessados, é um fator importante a ser considerado. Esse comportamento eleva os níveis de leptina, hormônio que sinaliza ao cérebro que o processo da puberdade pode começar.
O uso cada vez mais precoce de maquiagens e cosméticos produzidos para adultos e utilizados por meninas ainda na infância também é apontado por especialistas como uma fonte adicional dessa exposição.
Ferramenta educativa sobre menstruação infantil
É exatamente nesse período, no intervalo entre a infância e a adolescência, quando o corpo começa a mudar antes do esperado, que atua o Sosô: Ciclo sem Drama, aplicativo voltado a acompanhar o desenvolvimento puberal e menstrual de meninas.
A ferramenta começou a ser desenvolvida pelo casal Verônica Tarsitano e Rômulo Gomes, dois anos antes da primeira menstruação da filha, que tinha 8 anos quando os pais notaram as primeiras mudanças no corpo da menina e perceberam que não existia no mercado um app pensado especificamente para essa fase. Nesse processo, decidiram criar um app que permite garotas a partir dos 8 anos de idade acompanhar e aprender sobre puberdade e menstruação.
Na prática, o aplicativo reúne um calendário menstrual com sinalização dos ciclos, registros de humor e sintomas, conteúdo sobre mudanças no corpo, incluindo um teste que ajuda a estimar a proximidade da primeira menstruação, com recursos pensados justamente para que pais e mães tenham participação ativa no processo junto com suas filhas.
O app já é usado em diferentes países e contribui para a redução do desconforto e do medo em torno da primeira menstruação, impactando a abertura de conversas entre mães e filhas que antes eram evitadas por falta de conteúdo educativo adequado para meninas nessa faixa etária.
Um limite bem definido pela medicina
Pesquisas mostram o avanço ao olhar diretamente para a idade da primeira menstruação. O reflexo desse avanço aparece nos diagnósticos clínicos de puberdade precoce, quadro em que os sinais surgem de forma patológica, antes dos limites de idade estabelecidos pela medicina. Na Coreia do Sul, país que hoje concentra alguns dos registros mais detalhados do mundo, a prevalência anual do diagnóstico em meninas saltou de 141,8 para 3.439,9 casos a cada 100 mil, entre o início dos anos 2000 e 2020, um aumento superior a 24 vezes.
Um estudo publicado em dezembro de 2025 pela revista Annals of Pediatric Endocrinology & Metabolism, ao analisar, em média, 196 mil diagnósticos de puberdade precoce realizados na Coreia do Sul entre 2012 e 2020, identificou um salto preocupante. Entre meninas de 5 a 7 anos, a incidência quase dobrou, passando de 301,0 para 594,2 casos a cada 100 mil no período para a faixa etária.Já na tendência geral observada ao longo da pesquisa, o número triplicou de 270,6 para 919,9 em garotas de até 8 anos de idade.
Já no Brasil, o ERICA (Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes), primeiro levantamento com representatividade nacional sobre a idade da menarca no país, avaliou 40.803 meninas de 12 a 17 anos, das quais 37.390 já haviam menstruado. A análise apontou idade média da primeira menstruação de 11,71 anos entre pré-adolescentes que já lidavam com a menarca, com mediana de 12,41 anos ao considerar todas as participantes avaliadas. Cerca de 15% das brasileiras menstruam pela primeira vez antes dos 11 anos, e aproximadamente 60% entre 11 anos e 12 anos e 11 meses.
A mesma pesquisa também confirmou a relação entre peso e antecipação puberal, revelando que meninas com sobrepeso, de 11,37 anos, em média, e obesidade, na faixa de 11,34 anos, tiveram a menarca antes das que estavam com peso normal (11,82 anos), evidenciando o excesso de peso como um fator de risco associado de forma independente.
Para Verônica Tarsitano, co-fundadora do aplicativo Sosô, esse cenário global chega em forma de dúvida cotidiana. Como diferenciar uma variação normal de um sinal que merece atenção médica? É nesse ponto que entra o trabalho de ferramentas voltadas à observação do desenvolvimento infantil, ajudando pais a transformar percepção em registro.
“A gente recebe, toda semana, relatos de usuárias que notaram um sinal, mas levaram meses até procurar um especialista porque não sabiam se aquilo era normal para a idade ou motivo de preocupação. Ter clareza sobre esses marcos etários muda o momento em que a família busca ajuda”, afirma Tarsitano.
Gordura, hormônios e um mundo cheio de químicos
Uma revisão sistemática publicada no International Journal of Environmental Research and Public Health, que analisou 112 estudos sobre os fatores que influenciam a idade da menarca, aponta que o tecido adiposo tem um papel central nesse processo.
A menarca está relacionada aos níveis de leptina, hormônio produzido pelas células de gordura, e à maior ingestão de proteína. O maior índice de massa corporal (IMC) e o maior percentual de gordura corporal estão sistematicamente associados à antecipação da puberdade.
No Brasil, endocrinologistas pediátricos resumem essa relação à gordura corporal como um gatilho biológico, que ocorre quando a criança atinge um determinado percentual de gordura e a leptina sinaliza ao cérebro que o processo puberal pode começar. O fenômeno também tem relação com o aumento da obesidade infantil, impulsionado pelo sedentarismo e pelo consumo de ultraprocessados.
A exposição a substâncias químicas que interferem no sistema endócrino, como o bisfenol A, ftalatos e outros desreguladores endócrinos, presentes em plásticos, cosméticos, produtos de limpeza e agrotóxicos, já foi associada tanto à antecipação quanto ao atraso da menarca, dependendo da substância específica e da fase de exposição (intraútero, infância ou puberdade).
O preço de crescer rápido demais
Do ponto de vista físico, a puberdade precoce acelera inicialmente o crescimento, antecipando também a maturação óssea. Isso significa o fechamento das epífises e das extremidades dos ossos longos, responsáveis pelo crescimento em estatura. Para muitos pais, a criança que cresce mais rápido no início tende a parar de crescer mais cedo, resultando em estatura final menor do que o potencial genético permitiria. É por isso que o resultado sobre a estatura final dessa criança depende diretamente do diagnóstico precoce, idealmente antes dos 6 anos de idade.
Já a revisão sobre menarca reforça que a antecipação do desenvolvimento sexual está associada a um espectro mais amplo, com maior risco de depressão, pensamentos autodestrutivos, ansiedade, problemas de comportamento, além de condições cardiovasculares, metabólicas e ginecológicas na vida adulta, incluindo maior risco de câncer de mama.
Diagnóstico a tempo, tratamento eficaz
A problemática, portanto, não é a ausência de solução médica, mas sim o atraso na percepção dos sinais. As famílias costumam associar puberdade à adolescência e deixam passar despercebidos sinais que aparecem ainda na infância, como broto mamário, pelos pubianos e odor axilar antes dos 8 anos nas meninas, sinais de alerta para procurar um pediatra ou endocrinologista pediátrico.
Como uma ferramenta para reduzir essa distância entre o primeiro sinal físico e a consulta médica, o aplicativo “Sosô: Ciclo sem Drama” também contribui para que os pais transformem a observação do dia a dia em registro organizado, pensado para explicar os primeiros passos da menstruação das filhas nas visitas ao médico.
“Nosso papel não é substituir o pediatra, é dar às famílias um vocabulário e um registro para chegar à consulta com informação de qualidade, o que muda completamente a velocidade do diagnóstico, e a velocidade para os pais significa, principalmente, preservar a saúde emocional da filha que vive esta fase”, completa Tarsitano.
No fim, o que os números da menarca e da puberdade precoce mostram é que o corpo infantil está mudando num ritmo que a sociedade ainda não acompanhou por completo, e que o intervalo entre notar um sinal e buscar orientação especializada segue sendo o fator mais decisivo para cada caso.







