Levantamento divulgado nesta quarta-feira (28) pelo Ministério do Trabalho mostra que benefícios por incapacidade temporária passaram de 67 em 2023 para 361 em 2025

Dados divulgados nesta quarta-feira (28) pela Subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho, do Ministério do Trabalho e Emprego, mostram um crescimento expressivo nos afastamentos relacionados ao transtorno do jogo. O número de trabalhadores que receberam benefício por incapacidade temporária do INSS passou de 67 em 2023 para 157 em 2024 e 361 em 2025, alta de cerca de 439% em dois anos, segundo informações da Previdência Social.

O avanço ocorre no mesmo período em que as apostas online ampliaram sua presença no Brasil. Os dados, porém, não permitem concluir que a expansão ou a regulamentação das bets tenha causado diretamente o aumento dos afastamentos. O próprio levantamento recomenda cautela na interpretação, já que os registros analisados correspondem a trabalhadores que tiveram acesso ao benefício previdenciário e passaram por avaliação para reconhecimento da incapacidade temporária.

O crescimento dos afastamentos também antecede uma mudança radical na política brasileira para o setor. Em setembro de 2026, o governo federal editou a Medida Provisória 1.394, que proibiu em todo o país a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos online. As plataformas autorizadas deixaram de operar em 6 de outubro. Os dados sobre afastamentos, porém, referem-se ao período anterior à proibição e ainda não permitem avaliar os efeitos da nova política sobre a ocorrência do transtorno do jogo.

Para receber o benefício por incapacidade temporária, o segurado precisa apresentar uma condição de saúde que o impeça de exercer seu trabalho durante determinado período. Nos casos relacionados ao transtorno do jogo, os afastamentos mostram que os prejuízos podem ultrapassar a esfera financeira e alcançar também o funcionamento cotidiano e profissional.

O transtorno do jogo é classificado internacionalmente entre os transtornos decorrentes de comportamentos aditivos. Entre suas características estão dificuldade persistente de controlar as apostas, prioridade crescente dada ao jogo em relação a outras atividades e manutenção do comportamento mesmo diante de consequências negativas. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 1,2% da população adulta mundial apresenta transtorno do jogo.

No levantamento brasileiro, os homens representam 71% dos beneficiários afastados. A maior concentração está entre pessoas de 30 a 49 anos: 44,1% têm entre 30 e 39 anos e 22,8% entre 40 e 49, somando 66,9% dos casos analisados.

“Quando o comportamento começa a comprometer trabalho, relações, sono, finanças e outras áreas importantes da vida, já não estamos falando apenas de uma escolha recreativa. O ponto de atenção é justamente a perda de controle e a manutenção do comportamento mesmo diante dos prejuízos”, afirma Vinícius Guimarães Dornelles.

A dimensão profissional é apenas uma parte dos possíveis prejuízos. A Organização Mundial da Saúde relaciona o jogo problemático a sofrimento psicológico, dificuldades financeiras, conflitos familiares, ruptura de relacionamentos e maior risco de problemas de saúde mental. O Ministério da Saúde brasileiro também aponta alterações de sono e humor, comprometimento do salário e das economias e abandono de atividades importantes entre os sinais de alerta.

Um dos comportamentos característicos do transtorno é a tentativa de recuperar perdas por meio de novas apostas. A pessoa pode aumentar progressivamente os valores apostados, esconder quanto tempo ou dinheiro destina ao jogo e encontrar dificuldade para interromper a atividade mesmo quando já reconhece os prejuízos.

“É comum que a pessoa tente resolver o problema repetindo exatamente o comportamento que já está causando sofrimento, na expectativa de recuperar o que perdeu ou aliviar emoções difíceis. O tratamento precisa olhar não apenas para a aposta, mas para as funções que aquele comportamento passa a ocupar na vida da pessoa”, diz Êdela Aparecida Nicoletti.

O crescimento dos registros previdenciários ocorre em meio a uma ampliação da procura por assistência. O Ministério da Saúde informa que os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025. Desde 2026, o SUS também oferece teleatendimento específico para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, além do acolhimento pelas Unidades Básicas de Saúde e pelos Centros de Atenção Psicossocial.

A existência de um transtorno do jogo exige avaliação profissional. A intensidade ou a frequência das apostas, isoladamente, não definem um diagnóstico. Perda de controle, prioridade crescente dada ao jogo, prejuízos financeiros, sociais ou profissionais e persistência do comportamento apesar das consequências estão entre os aspectos considerados na avaliação clínica.

As evidências disponíveis também recomendam cautela na apresentação dos tratamentos. A Organização Mundial da Saúde aponta a terapia cognitivo-comportamental e a entrevista motivacional entre as intervenções psicológicas com melhor sustentação científica disponível para o transtorno do jogo. O acompanhamento deve considerar as características e necessidades de cada pessoa, inclusive a presença de outros problemas de saúde mental.

Para especialistas em saúde mental, a facilidade de acesso às apostas digitais acrescenta um desafio importante: o comportamento pode permanecer oculto por bastante tempo. A pessoa pode continuar trabalhando e mantendo parte da rotina enquanto acumula perdas, tenta recuperar dinheiro e enfrenta alterações emocionais, familiares e financeiras. Reconhecer precocemente os prejuízos permite buscar assistência antes que o comprometimento alcance outras áreas da vida.

“Nem toda pessoa que aposta desenvolve um transtorno, e esse cuidado é importante para evitar diagnósticos precipitados. O alerta aparece quando existe perda de controle, repetição apesar das consequências e comprometimento significativo da vida. Quanto antes esses sinais são reconhecidos, maiores são as possibilidades de procurar ajuda e construir alternativas ao comportamento”, acrescenta Êdela.

Sinais que merecem atenção

Entre os sinais apontados pelo Ministério da Saúde estão esconder ou mentir sobre tempo e dinheiro gastos com apostas; apostar novamente para tentar recuperar perdas; comprometer contas, salário ou economias; apresentar alterações no sono, no humor ou na rotina; abandonar atividades importantes; e enfrentar conflitos familiares relacionados ao jogo.

Pessoas que identificarem prejuízos relacionados às apostas podem procurar uma Unidade Básica de Saúde ou um Centro de Atenção Psicossocial. O SUS também disponibiliza avaliação e teleatendimento pelo Meu SUS Digital para pessoas com problemas relacionados ao jogo e seus familiares.

Sobre os especialistas

Vinícius Guimarães Dornelles é mestre em Psicologia, na área de Cognição Humana, e especialista em Terapia Comportamental Dialética pela Behavioral Tech, em Seattle, nos Estados Unidos. Também possui especializações em Terapia Dialético-Comportamental, Terapia Cognitivo-Comportamental e terapias baseadas em evidências para o transtorno de personalidade borderline.

Êdela Aparecida Nicoletti é psicóloga, especialista em Terapia Comportamental Dialética pela Behavioral Tech, em Seattle, e em Terapia Cognitivo-Comportamental. Possui certificação em transtorno de estresse pós-traumático, é diretora do Centro de Terapia Cognitiva Veda, mentora e tutora do Programa de Proficiência em Terapia Cognitiva e professora honorária da equipe formadora do Instituto Nora Cavaco, de Portugal.

Sobre a DBT Brasil

A DBT Brasil atua na formação, difusão e qualificação profissional em Terapia Comportamental Dialética no país. A instituição promove formação baseada em evidências e contribui para o debate público sobre saúde mental, regulação emocional, comportamentos de risco e estratégias de cuidado.

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