Arranjos de Desenvolvimento da Educação (ADEs) já unem 284 cidades brasileiras e ganham força no país como estratégia para melhorar a qualidade do ensino público
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 85,6% dos municípios brasileiros — um total de 4.768 cidades — possuem menos de 50 mil habitantes e enfrentam, sozinhos, limitações estruturais para avançar na qualidade da Educação Básica.
Nos últimos anos, um número crescente de prefeituras têm respondido a esse desafio de uma forma pouco convencional: em vez de competir, cooperar. É o que propõem os Arranjos de Desenvolvimento da Educação (ADEs), modelo de trabalho em rede formado por municípios com proximidade geográfica e características sociais semelhantes, que se unem para adotar estratégias conjuntas de política educacional, amparados pelo regime de colaboração previsto no artigo 211 da Constituição Federal de 1988.
Até meados de 2024, o Brasil já contava com 22 territórios organizados nesse formato, reunindo 284 municípios de 12 estados — Amazonas, Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Piauí, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Nos ADEs, a adesão é voluntária e sem burocracia. Os dirigentes municipais de educação e suas equipes técnicas se reúnem periodicamente para compartilhar experiências, trocar soluções e definir prioridades comuns, sem que nenhum município abra mão de sua autonomia.
O sucesso do ADE no litoral paranaense
Um exemplo recente do que essa cooperação pode gerar em resultados concretos vem do litoral do Paraná. Os sete municípios que integram o ADE Litoral Paranaense — Antonina, Guaraqueçaba, Guaratuba, Matinhos, Morretes, Paranaguá e Pontal do Paraná — apresentaram evolução no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025 nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.
Matinhos alcançou a melhor nota da região (6,5), seguido de Pontal do Paraná (6,4), Guaratuba (6,3), Morretes (6,1), Antonina (5,8), Paranaguá (5,8) e Guaraqueçaba (5,2). O destaque foi Morretes, que saltou de 5,4 pontos em 2023, para 6,1 em 2025, o melhor resultado desde o início da série histórica, em 2005. E parte desse avanço é atribuída pelas próprias redes municipais às trocas promovidas pelo Arranjo.
No município, a partir do “Avança Litoral”, ação coletiva do ADE voltado ao fortalecimento das práticas pedagógicas nas sete redes, a Secretaria Municipal de Educação de Morretes criou sua própria versão, o “Avança Morretes – Coordenadores em Ação”, direcionado à formação continuada de coordenadores pedagógicos e ao acompanhamento mais próximo do trabalho das escolas. Já em Pontal do Paraná, que fechou o ciclo com a segunda melhor nota da região, a mudança de gestão municipal em 2025 não interrompeu a parceria: o novo governo formalizou a renovação do compromisso com o ADE por mais dois anos.
Para Adriana Assumpção, secretária municipal de Educação de Morretes, a participação no ADE permitiu comparar práticas, conhecer experiências que deram certo, discutir dificuldades comuns e, principalmente, pensar em soluções coletivamente. “Eu acredito que ninguém transforma a educação sozinho. O resultado que Morretes alcançou, especialmente no Ideb, não é fruto de uma ação isolada, mas de um processo construído ao longo do tempo. E o ADE Litoral teve um papel muito importante nesse processo, pois a convivência com os outros municípios nos permitiu olhar com mais atenção para os resultados das avaliações, para as aprendizagens que precisavam ser fortalecidas e para o papel da gestão e da coordenação pedagógica nesse acompanhamento”, revela Adriana.
Os resultados não podem ser atribuídos exclusivamente à existência do Arranjo, refletem também o esforço interno de cada rede municipal de ensino. Ainda assim, a experiência do litoral paranaense se soma à de outros territórios organizados nesse modelo, como o ADE Granfpolis, em Santa Catarina, pioneiro no sul do país desde 2015 e hoje com resultados expressivos para os mais de 100 mil estudantes da região.
“O que aconteceu no litoral do Paraná mostra por que esse modelo tem crescido no Brasil: quando municípios pequenos e médios somam forças, eles conseguem qualificar suas redes de ensino em um ritmo que dificilmente alcançariam sozinhos. Não é uma fórmula mágica, é um processo construído passo a passo, com escuta e decisão conjunta dos gestores locais”, avalia Kátia Ferreira, coordenadora de Responsabilidade Social do Instituto Positivo.
Como funciona um Arranjo
Nos ADEs, os municípios são representados por Dirigentes Municipais de Educação e técnicos das Secretarias, que firmam um acordo de cooperação horizontal. A adesão é voluntária: cada município decide se participa do Arranjo e de cada uma das ações propostas dentro dele. O financiamento vem dos próprios recursos municipais destinados à educação, somados a eventuais parcerias com a iniciativa privada.
Entre os benefícios já observados nos territórios organizados em ADE estão o fortalecimento do regime de cooperação entre entes federados, o compartilhamento de experiências entre secretários, gestores escolares e equipes pedagógicas, maior visibilidade dos territórios frente a seus estados e ao país, e a atração de novos parceiros dispostos a contribuir com recursos humanos, técnicos e financeiros.
“Cada vez mais municípios brasileiros, sobretudo os de menor porte, estão percebendo que cooperação não é perda de autonomia, é ganho de capacidade. O papel do Instituto Positivo é justamente apoiar essa construção coletiva, sem tirar dos gestores locais o protagonismo das decisões”, complementa Kátia.
Sobre o Instituto Positivo
O Instituto Positivo é responsável pelo investimento social do Grupo Positivo e, desde 2012, trabalha pela melhoria da qualidade da educação pública no Brasil. A instituição atua em três frentes: localmente, na gestão do Centro de Educação Infantil Maria Amélia, em Curitiba (PR); regionalmente, no apoio técnico a Arranjos de Desenvolvimento da Educação — já apoiou o ADE Granpolis, em Santa Catarina, e hoje trabalha com o ADE Litoral Paranaense; e nacionalmente, em ações de advocacy para fortalecer a colaboração entre redes municipais de ensino. A partir de 2025, o Instituto amplia sua missão para também incentivar a leitura literária no país.
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