Quando um caso de abuso no trabalho ganha o noticiário, a reação costuma ser imediata: indignação, revolta e milhares de comentários nas redes sociais. Mas, passado o impacto inicial, uma pergunta permanece: quantos trabalhadores vivem situações semelhantes sem que ninguém saiba? 

Os episódios recentes que mostraram funcionários em realities produzidos por influenciadores, dinâmicas corporativas questionadas e o resgate de uma trabalhadora doméstica submetida por décadas a condições análogas às da escravidão revelam diferentes formas de violação da dignidade no trabalho. Embora distintos, esses casos têm algo em comum: só passaram a existir para a sociedade porque foi rompida a barreira do silêncio. 

O caso da trabalhadora doméstica talvez seja o exemplo mais contundente. Durante anos, sua rotina começava antes mesmo de a casa despertar e só terminava quando todos já haviam encerrado o dia. Preparava refeições, limpava, lavava roupas, cuidava da residência e ficava todo o tempo à disposição da família. Sem descanso adequado, sem autonomia sobre a própria rotina e afastada da convivência familiar e social, viveu por décadas privada não apenas de direitos trabalhistas, mas da própria liberdade. O abuso havia se tornado parte da rotina — e, justamente por isso, permaneceu invisível por tanto tempo. 

É claro que essa é uma situação extrema. Mas ela nos obriga a olhar também para formas de violência que não aparecem em operações policiais nem estampam as manchetes. Em muitas empresas, o abuso se manifesta por meio de cobranças humilhantes, exposição pública, isolamento, metas incompatíveis com a realidade, constrangimentos constantes ou um ambiente de medo, em que o trabalhador acredita que denunciar significa pôr o emprego em risco. 

Não por acaso, a saúde mental passou a integrar de forma definitiva a agenda da saúde e segurança do trabalho. Burnout, depressão e ansiedade podem ser reconhecidos como doenças ocupacionais quando demonstrado o vínculo entre o adoecimento e as condições em que o trabalho era desempenhado. Nesse contexto, a atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) trouxe uma mudança importante: os riscos psicossociais passaram a fazer parte do gerenciamento de riscos ocupacionais, o que impôs às empresas o dever de identificá-los, avaliá-los e adotar medidas para preveni-los e controlá-los. Isso significa reconhecer que o adoecimento nem sempre decorre de um acidente ou de um esforço físico excessivo. Muitas vezes, ele é consequência da forma como o trabalho é organizado, das metas impostas, da sobrecarga, do assédio, das humilhações reiteradas, da ausência de autonomia e de práticas de gestão que comprometem a saúde mental dos trabalhadores. 

A maioria dessas situações, entretanto, jamais se transforma em notícia. Elas acontecem diariamente, longe das câmeras e dos holofotes, protegidas pelo silêncio. Um silêncio alimentado pelo medo de sofrer represálias, de perder o emprego, de não conseguir uma nova colocação ou, simplesmente, de ouvir que tudo não passou de uma “brincadeira” ou de uma cobrança normal do ambiente corporativo. 

É justamente por isso que tantos trabalhadores convivem durante anos com situações que afetam sua saúde física e mental sem procurar ajuda. Quando o sofrimento se prolonga, começam os afastamentos previdenciários e surgem os transtornos psicológicos e as doenças ocupacionais. Junto com isso, muitas vezes vem o sentimento de culpa de quem acredita estar falhando, quando, na realidade, está adoecendo em um ambiente que deixou de ser saudável. 

Os casos que ganham repercussão cumprem um papel importante ao despertar a atenção da sociedade. Mas eles não podem se tornar uma cortina de fumaça que nos impeça de enxergar aqueles que continuam sofrendo longe das câmeras, dos holofotes e das redes sociais. A violação da dignidade no trabalho não começa apenas quando há cárcere privado, violência física ou exploração extrema. Ela também existe quando a humilhação é naturalizada, quando o medo impede uma denúncia e quando o adoecimento é tratado como fragilidade individual, e não como consequência de um ambiente de trabalho adoecido. 

Enquanto alguns abusos chocam o país, milhares de trabalhadores seguem enfrentando realidades semelhantes, em diferentes graus, porém sem nenhuma visibilidade. Romper o silêncio é o primeiro passo para que a dignidade no trabalho deixe de ser apenas um princípio jurídico e passe a ser, de fato, uma realidade. 

Priscila Arraes Reino é advogada previdenciária e trabalhista há mais de 25 anos, autora de Burnout tem lei   

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