Pesquisa da Nature Medicine encontra alterações na neurogênese do hipocampo e amplia debate sobre cognição, funcionamento cotidiano e risco de demência

Esquecer um compromisso que estava marcado, entrar em um cômodo e não lembrar o que foi buscar, perder o fio de uma conversa, reler a mesma página várias vezes ou precisar de mais tempo para organizar tarefas simples. Quando episódios assim começam a aparecer no cotidiano, é comum que sejam atribuídos ao cansaço, ao excesso de trabalho ou simplesmente à distração. Em alguns casos, porém, alterações de memória, atenção e velocidade de raciocínio também fazem parte da depressão e podem permanecer despercebidas diante dos sintomas mais conhecidos da doença.

Um estudo publicado em 21 de agosto de 2026 na revista científica Nature Medicine acrescenta uma nova peça à compreensão desse fenômeno. Pesquisadores analisam o hipocampo de pessoas com transtorno depressivo maior e encontram evidências de alterações no processo de neurogênese adulta, que corresponde à formação de novos neurônios em uma região cerebral diretamente relacionada à memória, à aprendizagem e à capacidade de adaptação do cérebro.

O trabalho, intitulado Dysregulated adult hippocampal neurogenesis in major depressive disorders, reúne técnicas de análise genética, epigenética, espacial e proteica e identifica uma espécie de interrupção no processo de formação e maturação de novas células no hipocampo de indivíduos com depressão que não utilizam medicação. Os pesquisadores também observam alterações em plasticidade sináptica, equilíbrio entre sinais excitatórios e inibitórios, metabolismo celular, resposta ao estresse e inflamação. O artigo tem DOI 10.1038/s41591-026-04571-8.

O estudo não demonstra que a redução da neurogênese seja a causa isolada da depressão ou dos esquecimentos. A própria pesquisa apresenta um quadro mais complexo, no qual diferentes processos biológicos podem atuar em conjunto. O achado, no entanto, oferece novas pistas para compreender por que sintomas cognitivos aparecem com frequência em pessoas com transtorno depressivo maior.

“Quando pensamos em depressão, ainda existe uma tendência de procurar apenas tristeza, desânimo ou falta de prazer. A pessoa pode continuar trabalhando, cuidando da casa e cumprindo compromissos, mas começa a perceber que precisa de um esforço muito maior para pensar, lembrar, decidir e organizar o próprio dia. Isso também precisa entrar na avaliação clínica”, afirma Êdela Nicoletti, diretora da DBT Brasil e do CTC Veda.

A associação entre depressão e dificuldades cognitivas já aparece em uma extensa literatura científica. Revisões sistemáticas identificam alterações em atenção, aprendizagem, memória, memória de trabalho, funções executivas e velocidade de processamento. Em 2026, uma revisão sistemática e meta-análise que reúne 49 estudos e quase 7 mil participantes encontra associações entre dificuldades cognitivas e diferentes aspectos do funcionamento psicossocial de pessoas com transtorno depressivo maior.

Outro estudo recente, publicado em 2025 na Neuropsychology Review, reúne 99 pesquisas sobre o comportamento da cognição ao longo do transtorno depressivo maior. A análise mostra que a melhora dos sintomas emocionais não significa necessariamente recuperação cognitiva completa. Em parte dos pacientes, algumas dificuldades permanecem mesmo depois da redução dos sintomas depressivos, principalmente quando existem episódios recorrentes.

Na prática, sintomas cognitivos associados à depressão podem aparecer em situações que parecem pequenas quando observadas isoladamente. A pessoa esquece onde deixa objetos, perde prazos, demora mais para encontrar uma palavra, sente dificuldade para acompanhar uma reunião, lê e não consegue reter o conteúdo ou precisa anotar atividades que antes lembrava com facilidade. Esses sinais não permitem diagnosticar depressão e podem ter inúmeras outras causas, mas ganham importância quando se tornam frequentes, representam uma mudança em relação ao funcionamento habitual ou aparecem acompanhados de alterações de humor, sono, interesse, energia e comportamento.

“O sofrimento não acontece apenas no campo emocional. Cognição também é funcionamento. Se alguém precisa mobilizar uma quantidade enorme de energia para realizar tarefas que antes eram automáticas, isso pode aumentar frustração, sensação de incapacidade, conflitos e até o isolamento. O tratamento precisa considerar como a pessoa está conseguindo viver, e não apenas se ela relata estar mais ou menos triste”, explica Vinícius Dornelles, da DBT Brasil.

Depressão e Alzheimer não são a mesma coisa

A presença de lapsos de memória durante um quadro depressivo também cria uma dúvida especialmente comum entre adultos mais velhos e seus familiares. Afinal, como diferenciar uma alteração cognitiva associada à depressão do início de uma doença neurodegenerativa? A ciência mostra que a relação é complexa. Uma revisão recente sobre depressão na velhice estima que entre 20% e 50% das pessoas com depressão nessa fase da vida podem preencher critérios para comprometimento cognitivo leve. O trabalho também destaca que diferenciar alterações cognitivas relacionadas à depressão dos estágios iniciais da doença de Alzheimer pode ser difícil em determinados pacientes.

Ao mesmo tempo, estudos longitudinais encontram associação entre histórico de depressão e maior risco futuro de demência. Uma meta-análise publicada em 2026, que reúne 17 estudos com acompanhamento de até 12 anos de pessoas que já apresentam comprometimento cognitivo leve, encontra associação entre depressão e maior probabilidade de progressão para demência. Os próprios pesquisadores classificam a certeza da evidência como muito baixa diante da grande heterogeneidade entre os trabalhos, o que impede transformar a associação em uma relação simples de causa e efeito.

Diretrizes da Alzheimer’s Association também alertam para essa complexidade. A depressão na meia-idade aparece entre fatores modificáveis associados ao risco de demência, enquanto sintomas depressivos que surgem pela primeira vez em pessoas mais velhas podem, em algumas situações, fazer parte das manifestações iniciais de alterações neurodegenerativas que ainda não produzem um quadro claro de demência.

Isso significa que depressão não “vira” Alzheimer e que apresentar esquecimentos durante um episódio depressivo não indica, por si só, uma doença neurodegenerativa. Também significa que mudanças cognitivas persistentes não devem ser automaticamente atribuídas à idade ou ao estado emocional.

“Quando existe uma mudança importante de memória, orientação, linguagem, capacidade de administrar dinheiro, organizar medicamentos, dirigir ou executar atividades que a pessoa sempre realizou, a investigação precisa ser ampla. Tratar a depressão é necessário, mas atribuir todo esquecimento à depressão também pode atrasar o diagnóstico de outras condições”, acrescenta Nicoletti.

A avaliação pode envolver história clínica, análise do funcionamento cotidiano, medicamentos em uso, qualidade do sono, consumo de álcool e outras substâncias, condições metabólicas e cardiovasculares, exames laboratoriais e, quando indicado, avaliação neuropsicológica e investigação neurológica.

Para os pesquisadores do estudo publicado na Nature Medicine, compreender melhor a neurogênese e a plasticidade do hipocampo pode abrir caminhos futuros para identificação de subtipos biológicos da depressão, novos biomarcadores e tratamentos mais individualizados. Esses caminhos ainda estão em investigação e não representam exames ou terapias disponíveis na prática clínica.

Enquanto a ciência avança na compreensão do que acontece no cérebro durante a depressão, o cotidiano continua oferecendo informações clínicas importantes. Um esquecimento isolado diz pouco. Mas, quando memória, concentração, velocidade de pensamento ou capacidade de realizar tarefas começam a mudar de forma persistente, especialmente quando essas mudanças interferem na vida cotidiana, vale investigar. Não para transformar todo lapso em doença, mas para não tratar como simples distração aquilo que pode fazer parte de um sofrimento maior.

Vinícius Dornelles é psicólogo, mestre em Psicologia na área de Cognição Humana e especialista em Terapia Comportamental Dialética (DBT), com formação pela Behavioral Tech, em Seattle, e pela Universidade de Luján, na Argentina. Integra a diretoria da World Dialectical Behavior Therapy Association e atua na formação de profissionais em DBT, com foco em regulação emocional, comportamento suicida e autolesão.

Êdela Nicoletti é psicóloga e especialista em Terapia Comportamental Dialética (DBT), com formação pela Behavioral Tech, em Seattle, além de especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental e certificação em transtorno de estresse pós-traumático. É diretora do Centro de Terapia Cognitiva Veda e atua na formação e supervisão clínica de profissionais da saúde mental.

DBT Brasil é uma iniciativa dedicada à formação, disseminação científica e aplicação clínica da Terapia Comportamental Dialética no país. Atua na capacitação de profissionais da saúde mental e na produção de conteúdo educativo sobre tratamentos baseados em evidências.

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