Especialistas discutem como o comportamento, marcado pela masturbação prolongada, consumo contínuo de conteúdo erótico e adiamento do orgasmo, reflete as mudanças na forma como o desejo e as conexões são construídos na era digital

Passar horas consumindo conteúdo erótico, prolongando a masturbação e adiando o orgasmo deixou de ser um comportamento restrito a nichos da internet. Conhecida como gooning, essa prática teve um crescimento de 778% nas buscas do Google nos últimos cinco anos e vem chamando a atenção de especialistas por revelar mudanças na forma como o desejo é construído na era digital.

Na semana em que se celebra o Dia do Orgasmo, comemorado em 31 de julho, o fenômeno amplia o debate sobre prazer, fantasia e os efeitos de uma sexualidade cada vez mais mediada por telas.

Segundo levantamento da ZipHealth, um em cada quatro americanos afirma já ter praticado o gooning, estado de intensa imersão na excitação sexual que combina masturbação prolongada, edging (técnica de retardar o orgasmo) e consumo contínuo de conteúdo erótico. Mais do que uma prática específica, seu crescimento chama atenção para uma transformação mais ampla: nunca houve tantos estímulos disponíveis para despertar fantasias, mas também nunca foi tão fácil permanecer apenas no ambiente virtual.

Os números mostram que os homens têm quase o dobro de probabilidade de praticar gooning em relação às mulheres. Embora 84% dos participantes afirmem que a experiência não trouxe impactos negativos para sua saúde mental, 16% relatam sentir vontade de praticá-la mesmo sem planejamento e 8% dizem ter dificuldade para interromper a atividade depois de iniciá-la.

Quando o prazer merece atenção

Para Sanny Rodrigues, neuropsicanalista clínica e especialista em relações contemporâneas, o gooning não deve ser encarado automaticamente como um problema. “O que merece atenção é quando há perda de controle, necessidade de dedicar cada vez mais tempo à prática, prejuízos nos relacionamentos, no trabalho ou dificuldade em sentir satisfação em experiências sexuais fora desse contexto”, afirma.

A especialista observa que comportamentos sexuais como esse frequentemente funcionam como estratégias para aliviar ansiedade, estresse, solidão ou outras emoções difíceis de elaborar. “Mais importante do que julgar a prática é compreender qual função ela exerce na vida daquela pessoa e se ela está contribuindo para o seu bem-estar ou limitando sua qualidade de vida”, diz.

Da fantasia ao encontro

Para Gustavo Ferreira, head de marketing do Ysos, aplicativo de encontros casuais, menage a trois e swing, o crescimento do gooning também revela uma transformação na maneira como as pessoas constroem seus desejos. “Percebemos que muitos usuários chegam ao aplicativo depois de passar muito tempo explorando fantasias no ambiente digital. Em vez de buscarem apenas mais estímulos, eles procuram transformar esse desejo em experiências reais, consensuais e compartilhadas. O app acaba funcionando como uma ponte entre a fantasia construída na tela e o encontro presencial”, afirma.

Segundo ele, esse comportamento ajuda a explicar uma mudança observada nas plataformas de relacionamento. “A produção de conteúdo erótico pode despertar curiosidades e fantasias, mas ela não substitui a troca entre pessoas. O que vemos é um público cada vez mais interessado em conversar sobre desejos, negociar limites e viver experiências reais. A sexualidade contemporânea passa por esse equilíbrio entre o que acontece na tela e o que acontece na vida.”

Uma conversa que vai além do orgasmo

Criado para incentivar o diálogo sobre prazer sexual, o Dia do Orgasmo ganha novos significados em um cenário em que boa parte da experiência erótica acontece diante de telas. Para Sanny Rodrigues, a questão central não está na prática em si, mas na forma como ela impacta a vida de cada pessoa. “A sexualidade saudável é aquela que promove bem-estar, conexão e liberdade. Quando uma prática começa a isolar, a substituir ou a paralisar, vale parar e perguntar o que ela está tapando.”

Mais do que discutir o gooning, o debate revela uma transformação maior na sexualidade contemporânea. Entre algoritmos, conteúdo erótico e estímulos praticamente infinitos, cresce também o interesse por experiências presenciais, consensuais e capazes de transformar fantasia em conexão. Em um cenário onde o desejo nasce cada vez mais nas telas, a conversa sobre prazer passa, inevitavelmente, por entender o caminho entre o virtual e o real.

Sobre o Ysos

O Ysos é o maior aplicativo brasileiro voltado para encontros casuais, pessoas interessadas em não monogamia, relacionamentos liberais e experiências a três. Criado em 2018, o aplicativo reúne mais de 2 milhões de usuários e conecta pessoas que buscam relacionamentos, novas experiências e conexões baseadas em afinidades e interesses em comum. A plataforma está disponível para Android e iOS e pode ser baixada na Play Store e na App Store.

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