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    Home»Brasil»Influencers usam discurso religioso para fazer apologia à ‘cura gay’
    Brasil

    Influencers usam discurso religioso para fazer apologia à ‘cura gay’

    Redação Fatos AMBy Redação Fatos AM17 de maio de 2024Nenhum comentário5 Mins Read
    ©Shutterstock
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    “Jesus me curou, ele pode fazer o mesmo por você”, diz o influencer cearense Carlos Emanuell, 20, num vídeo publicado em seu perfil no TikTok, onde tem 4,3 milhões de seguidores. A “doença” do jovem seria a transgeneridade. Até abril de 2023, Carlos era Catty.

    Naquele mês, ele –já famoso pela produção de memes– anunciou a retirada da prótese mamária, a nova retificação do nome e a conversão à religião evangélica. Depois, começou a divulgar conteúdos sobre seu processo.

    Carlos relatou ter recebido um chamado para viver conforme a vontade divina. “Deus falou comigo e perguntou quando eu voltaria para Ele”, disse, em uma das gravações. “Eu não nasci um homossexual ou uma mulher trans, eu escolhi ser e viver naquela ignorância”, continuou.

    Vários comentários foram escritos em apoio a tal discurso. Outros tantos publicados em deboche ao que chamaram de promoção à “cura gay”, jargão mais conhecido para se referir a um suposto tratamento cujo objetivo é converter pessoas LGBTQIA+ à heteronormatividade.

    Algumas instituições e grupos de apoio argumentam que a liberdade religiosa lhes dá o direito de ajudar aqueles que querem mudar sua identidade ou orientação sexual. Para isso, utilizam técnicas de condicionamento e repressão, terapias de aversão química, elétrica e até exorcismo.

    O método é proibido no Brasil desde 1999, por ordem do Conselho Federal de Psicologia. Em 2017, porém, a Justiça Federal do Distrito Federal concedeu uma liminar permitindo a psicólogos tratar pessoas LGBTQIA+ como doentes.

    A decisão atendia a um pedido de profissionais cristãos que se aproveitaram de uma brecha deixada pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Mesmo após ter despatologizado a homossexualidade, em 1990, a entidade deixou em aberto a possibilidade de pessoas desconfortáveis com sua identidade procurarem tratamento.

    Em 2019, a recomendação foi revogada. Naquele mesmo ano, a ministra do STF (Supremo Tribunal Federal) Carmen Lúcia suspendeu os efeitos da liminar do DF. Hoje, há na Câmara dos Deputados um projeto de lei (PL 5034/2023) visando equiparar terapias de conversão à tortura, crime inalienável com pena de até oito anos.

    Celebridades da conversão

    Caleb Rinavi, 39, “deixou as práticas homossexuais”, virou pastor e um exemplo para milhares de pessoas nas redes sociais. Só no Instagram são 19 mil seguidores.

    Num testemunho publicado em seu perfil, ele contou ter crescido em um ambiente feminino que o fez acreditar ser gay. No Réveillon de 2023, ele conta, resolveu visitar uma igreja Batista em Itaguaí (RJ), e sua vida mudou.

    Caleb afirma que, nos dias seguintes, começou a ter visões com Deus. Depois, sentia nojo ao praticar sexo com outros homens. “Eu comecei a me perguntar por que estava fazendo aquilo, e não tinha explicação”, disse em um vídeo.

    O hoje influencer então renunciou aos seus desejos e, conforme diz, começou a viver para Cristo. Além disso, quis compartilhar sua jornada com possíveis interessados, algo a que chamou de “7 passos de liberdade”.

    Dentre os conselhos estão deixar de seguir pessoas que postam fotos sensualizando, retirar divas internacionais da playlist, desinstalar aplicativos de relacionamento e parar de usar roupas unissex.

    Em todas suas as publicações –reunindo relatos arrependidos da sua vida pregressa, incentivo à “cura” e teorias de doutrinação sexual a crianças–, Caleb utiliza a hashtag #VerdadeQueLiberta, sua marca.

    Heloisa Helena Gama Alves, presidente da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo), diz não haver lei específica que vede esse tipo de postagem. Entretanto, ela diz que, a depender da agressividade, o conteúdo pode configurar crime de LGBTfobia, para o qual há previsão de um a três anos de prisão e multa.

    Karen Santana, 29, afirma que a homossexualidade destruiu parte de sua vida. Desde o último ano ela se diz convertida, agora gosta de homens. Tudo isso, ressalta, graças a Deus. A moradora de Duque de Caxias (RJ) destaca todas essas informações em seu Instagram, onde tem quase 13 mil seguidores.

    Sua caminhada para se livrar do lesbianismo foi transformada em livro, depois em um workshop chamado JOPE (jejum, oração, palavra e entrega), voltado principalmente a jovens pentecostais –aqueles que reconhecem ser pecadores e veem a possibilidade de vencer o desejo por meio da fé.

    “Apenas Cristo pôde reafirmar minha identidade, curar feridas emocionais profundas, e hoje podemos seguir uma caminhada de fé em fé, de reino em reino e de glória em glória”, diz Karen nas redes.

    Por telefone, a reportagem procurou Carlos, Caleb e Karen para se pronunciarem sobre suas publicações. Carlos não respondeu. Caleb disse ter sido advertido por seus advogados a não dar entrevistas.

    Já Karen enviou nota na qual diz que seu projeto JOPE é acolhedor. “Qualquer pessoa que deseje ser livre é muito bem-vinda, independentemente do pecado. Não há definição de pecado, nem grupo seleto, nem segregação. Existem testemunhos de pessoas que se livraram de pecados além do de cunho sexual”, disse.

    Violência contra LGBTs

    Ao menos 230 pessoas LGBTs morreram violentamente no Brasil em 2023 –a média é de um óbito a cada 38 horas. A maioria delas (184) foi assassinada, e também foram contabilizados 18 suicídios. Outros 28 casos não tiveram a causa estabelecida.

    Os dados foram divulgados na terça (14) pelo Observatório de Mortes e Violências LGBTI+, por ocasião do Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, celebrado nesta sexta, 17 de maio.

    As fontes de informações são notícias de jornais, portais e redes sociais, dada a ausência de dados governamentais a respeito.

    Dos mortos, 142 eram mulheres trans ou travestis; 59, gays;13, homens trans; sete, lésbicas; e uma pessoa era não binária. Ainda foram registradas oito ocorrências sem identidade de gênero ou orientação sexual descritas.

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