Levantamento mostra que o total de empreendedores com até 29 anos chegou a 4,9 milhões em 2025, impulsionado pelo maior acesso à educação e à tecnologia
Por décadas, o roteiro para ingressar no mercado de trabalho parecia definido: estudar, concluir a formação e disputar uma vaga de emprego. No entanto, uma nova geração de profissionais tem redesenhado esse percurso. Em vez de mirar exclusivamente a carteira assinada, muitos jovens passaram a enxergar o empreendedorismo como um caminho para conquistar independência, propósito e maior controle sobre a própria trajetória profissional.
A mudança já pode ser observada nos números. Levantamento do Sebrae, com base na PNAD Contínua do IBGE, mostra que o empreendedorismo entre os jovens brasileiros segue em expansão. Entre 2012 e 2024, o número de donos de negócio com idade entre 18 e 29 anos passou de cerca de 4 milhões para 4,9 milhões, fazendo com que essa faixa etária represente atualmente 16% de todos os empreendedores do país.
Parte desse avanço está ligada ao aumento da escolarização entre os jovens brasileiros. No mesmo período, dobrou a participação daqueles que cursam ou já concluíram o ensino superior. Com mais acesso à educação, à tecnologia e à informação, essa geração passou a identificar novas oportunidades de negócio e a enxergar o empreendedorismo como uma possibilidade concreta de construir a própria carreira.
Para a mentora de desenvolvimento pessoal e posicionamento profissional Naiana Vargas, o fenômeno reflete uma transformação mais profunda relacionada à forma como as novas gerações constroem sua identidade profissional. “Os jovens de hoje cresceram em um ambiente onde as possibilidades de carreira são muito mais amplas do que eram para gerações anteriores. Eles entendem que podem criar seus próprios caminhos e não necessariamente seguir modelos profissionais já estabelecidos”, afirma.
Segundo a especialista, a decisão de empreender costuma estar associada à busca por autonomia, mas exige um nível de maturidade emocional que muitas vezes é subestimado. “Existe uma visão bastante romantizada sobre empreender. A liberdade é um dos atrativos, mas ela vem acompanhada de responsabilidade, tomada constante de decisões e capacidade de lidar com incertezas. O desafio não está apenas em abrir uma empresa, mas em desenvolver a estrutura emocional necessária para sustentá-la”, explica.
Na avaliação de Naiana, o aumento do empreendedorismo entre jovens também está relacionado a uma mudança de valores no mercado de trabalho. Diferentemente de gerações anteriores, que priorizavam estabilidade e previsibilidade, muitos profissionais mais jovens buscam alinhamento entre trabalho, propósito e estilo de vida.
Segundo Naiana Vargas, o fenômeno também está ligado à forma com que a Geração Z enxerga a carreira. Diferentemente de gerações anteriores, que muitas vezes priorizavam estabilidade e permanência em uma mesma empresa, os jovens de hoje tendem a buscar trajetórias alinhadas aos seus valores, interesses e propósito de vida. Nesse contexto, o empreendedorismo surge como uma alternativa atrativa por oferecer maior autonomia, possibilidade de criar algo próprio e liberdade para construir uma carreira que faça sentido para sua identidade.
A especialista ressalta, porém, que abrir uma empresa não deve ser encarado como uma solução imediata para insatisfações profissionais. Antes de empreender, é fundamental desenvolver clareza sobre competências, objetivos e perfil comportamental. Na avaliação de Naiana, o autoconhecimento é um dos principais fatores para a construção de negócios sustentáveis, já que decisões tomadas apenas por impulso, pressão externa ou comparação com outras pessoas tendem a gerar frustrações ao longo do caminho.
Para Naiana, o avanço do empreendedorismo jovem reflete uma geração que busca mais propósito e identificação com o próprio trabalho. No entanto, construir uma carreira alinhada a esses valores exige preparo, responsabilidade e autoconhecimento.




