Norma que passa a permitir fiscalização e penalidades relacionadas aos riscos psicossociais reacende debates sobre burnout, pressão emocional, inteligência artificial e relações corporativas
A entrada em vigor da fase punitiva da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que obriga empresas a incluírem riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais, intensifica discussões sobre saúde mental, burnout e responsabilidade emocional dentro do ambiente corporativo. A norma, atualizada em 2024 e implementada de forma educativa ao longo de 2025, passa agora a permitir fiscalização e penalidades relacionadas a fatores como assédio, pressão excessiva, sobrecarga emocional e ambientes organizacionais considerados adoecedores.
O tema ganha força em um cenário marcado pelo aumento dos afastamentos relacionados à saúde mental, pelo crescimento dos casos de ansiedade e esgotamento profissional e pela transformação acelerada das relações de trabalho diante da inteligência artificial e da automatização.
“Durante muito tempo, sofrimento emocional foi tratado dentro das empresas como fragilidade individual ou incapacidade profissional. Hoje existe uma compreensão maior de que ambientes emocionalmente inseguros adoecem pessoas, agravam quadros emocionais e impactam diretamente produtividade, criatividade e relações profissionais”, comenta a psicanalista, empresária, advogada especialista em Direito do Trabalho e CEO do Grupo Altis, Ana Lisboa.
Ana lidera um dos maiores grupos voltados à saúde mental e desenvolvimento humano do país, com mais de 100 mil alunas impactadas em 101 países, além de atuar diretamente na formação de lideranças femininas, educação emocional e desenvolvimento corporativo . O Grupo Altis também implementa internamente práticas voltadas ao acompanhamento da saúde emocional de colaboradores e ao fortalecimento de ambientes considerados emocionalmente seguros.
A especialista afirma que o endurecimento da NR-1 acontece justamente em um momento em que o mundo corporativo passa a enxergar saúde mental como um tema estrutural e econômico, não apenas humano. “O que mais me chamou atenção nas discussões internacionais sobre futuro do trabalho foi perceber que saúde mental deixou de ser um tema separado. Antes ela aparecia em painéis específicos. Hoje atravessa debates sobre economia, produtividade, inteligência artificial, liderança, criatividade e educação”, afirma Ana ao comentar sua participação em fóruns internacionais voltados à transformação do mercado de trabalho.
Ela explica que uma das maiores preocupações debatidas atualmente envolve o impacto emocional provocado pela insegurança profissional, pela pressão dos algoritmos e pelas mudanças aceleradas nas relações corporativas. “O mercado percebeu que não existe mais como separar saúde emocional de desempenho profissional. A pressão por performance, a insegurança contratual, a falta de previsibilidade e o excesso de automatização estão diretamente ligados ao crescimento de ansiedade, burnout, afastamentos e colapsos emocionais”, diz.
Ana também destaca que as discussões globais sobre trabalho deixaram de olhar apenas para legislação ou produtividade e passaram a tratar saúde mental como peça central para a sustentabilidade econômica. “Existe hoje uma preocupação muito grande sobre a capacidade humana de sustentar emocionalmente esse novo modelo de trabalho. As pessoas estão cansadas, desconectadas de si mesmas e vivendo uma ruptura de identidade profunda, porque fomos treinados durante décadas para acreditar que éramos aquilo que produzíamos.”
Para ela, a fase punitiva da NR-1 ajuda a amadurecer uma discussão que muitas empresas ainda evitavam enfrentar. “A empresa não é responsável por toda a história emocional de alguém, mas também não pode ignorar o impacto que ambientes violentos, lideranças despreparadas e culturas de pressão constante exercem sobre a saúde mental das pessoas. O desafio agora é construir relações de trabalho emocionalmente mais seguras, sustentáveis e humanas.”
Criada em 1978, a NR-1 estabelece diretrizes gerais sobre segurança e saúde no trabalho no Brasil. A atualização publicada pelo Ministério do Trabalho em 2024 incluiu expressamente os fatores de risco psicossociais dentro das obrigações relacionadas ao gerenciamento de riscos ocupacionais das empresas.
Ana Lisboa é psicanalista, advogada, escritora e empresária com atuação internacional no campo do desenvolvimento humano e da saúde mental feminina. Criadora do método Feminino Moderno, já impactou mais de 100 mil mulheres em 101 países com programas voltados à autonomia emocional, reconexão com o corpo e liberdade identitária. Com mais de uma década dedicada ao estudo das dinâmicas sistêmicas, mentalidade e integração emocional, desenvolveu a Integração Sistêmica, abordagem própria que integra psicanálise, neurociência e saberes terapêuticos contemporâneos aplicados ao desenvolvimento pessoal e às relações humanas.




