Bruno Gama, CEO da FlowCredi
Existe uma característica muito brasileira na forma como lidamos com patrimônio. Durante décadas, comprar um imóvel representou a chegada a um porto seguro. Era a materialização da estabilidade financeira, um bem destinado a proteger a família, atravessar gerações e servir como legado.
Essa visão continua bastante presente. O que começa a mudar é a forma como esse patrimônio participa da vida financeira das pessoas.
Juros elevados, crédito mais caro e um ambiente econômico que exige decisões cada vez mais racionais levaram muitas famílias e empresários a olhar com mais atenção para os ativos que já possuem.
Em vez de enxergar o imóvel apenas como um patrimônio a ser preservado, cresce a percepção de que ele também pode cumprir uma função estratégica quando há um objetivo financeiro claro.
Foi essa mudança que mais me chamou atenção na primeira edição do Panorama do Crédito com Garantia de Imóvel no Brasil, estudo que desenvolvemos para acompanhar a evolução da modalidade no país.
Os números mostram que 43,7% das operações realizadas no primeiro semestre deste ano tiveram como principal finalidade a quitação de dívidas. Ao mesmo tempo, 32,1% dos contratos foram firmados por empresários.
À primeira vista, são dois grupos com necessidades bastante diferentes. Mas ambos tomaram a decisão de utilizar um patrimônio já estabelecido para melhorar sua estrutura financeira.
No caso das famílias, isso significa substituir dívidas com juros elevados por uma operação de menor custo e maior prazo, tornando o orçamento mais sustentável. Entre empresários, o movimento aparece no financiamento de projetos de expansão, aquisição de equipamentos, abertura de novas unidades e reforço do capital de giro.
O ponto em comum é como o patrimônio passa a ser encarado, e não exatamente o destino do crédito.
Esse cenário aproxima o Brasil de uma visão já consolidada em mercados onde o crédito com garantia de imóvel é mais desenvolvido. Nesses países, utilizar patrimônio como parte da estratégia financeira é uma decisão de gestão. Ou seja, o imóvel continua sendo uma reserva de valor, porém também ajuda famílias e empresas a acessar capital em condições mais eficientes quando isso faz sentido.
Naturalmente, essa não deve ser uma decisão universal. Utilizar um imóvel para contratar crédito exige planejamento, capacidade de pagamento e um objetivo bem definido. O patrimônio continua sendo um dos ativos mais importantes de uma família e deve ser tratado com tal responsabilidade.
O fato é que, durante muito tempo, a lógica predominante era acumular patrimônio e preservá-lo. Aos poucos, esse mesmo patrimônio passa a integrar decisões relacionadas à organização das finanças e ao financiamento de novos projetos, tanto das famílias quanto das empresas. Esse é um sinal positivo de amadurecimento financeiro dos brasileiros.
Bruno Gama é CEO da FlowCredi, fintech que possui um marketplace de soluções de crédito com garantia.







