O Dia dos Pais, comemorado nesse domingo (9) pode trazer novos hábitos. Trocar o sedentarismo por uma corrida ao lado de seu pai pode parecer apenas um programa de fim de semana, mas a ciência mostra que esse gesto simples reúne benefícios que vão muito além do condicionamento físico. Especialistas explicam como a atividade compartilhada entre pai e filho protege o coração, alivia a mente e fortalece o vínculo entre as gerações. Confira:

Coração mais forte, risco cardiovascular menor

Para homens acima dos 40 anos, a corrida está entre as modalidades mais eficazes para a saúde cardiovascular. Segundo Aline Azevedo (@draalinecardio), cardiologista ecocardiografista, afiliada do Instituto Nutrindo Ideais (@nutrindoideais)/Cabo Frio, a prática reduz de forma significativa o risco de mortalidade por doenças do coração, com uma vantagem sobre outras modalidades: facilidade logística, boa adesão e eficiência de tempo. “A corrida leva ao remodelamento do coração, aumentando o volume de oxigênio que o organismo consegue utilizar”, o que se traduz em mais capacidade aeróbica, fortalecimento muscular e ganho de densidade óssea.

Correr em dupla, segundo pesquisas citadas pela cardiologista, também muda a resposta do corpo ao esforço. O exercício compartilhado ativa o sistema opioide endógeno, aumentando a tolerância à dor e reduzindo a percepção do cansaço. Some-se a isso a queda nos níveis de cortisol, o hormônio do estresse, e o resultado é uma sensação maior de satisfação durante o treino, que costuma se refletir em desempenho melhor.

Sinais de alerta que não podem ser ignorados

Mesmo com o entusiasmo, a especialista reforça a importância de reconhecer os limites do corpo, especialmente para quem retoma a atividade após anos de sedentarismo. Dor ou aperto no peito, falta de ar intensa, palpitações, tontura, desmaio, visão turva, confusão mental e sintomas gastrointestinais como náusea e vômito são sinais que exigem atenção médica imediata.

Por isso, antes de qualquer retomada, a avaliação cardiovascular é indispensável, sobretudo para pais acima dos 40 anos. Eletrocardiograma e exames laboratoriais de risco cardíaco costumam ser o ponto de partida, podendo evoluir para ecocardiograma e avaliação cardiopulmonar conforme o histórico, os sintomas ou a intensidade pretendida do treino. “A avaliação clínica pré-participação esportiva é mandatória e reduz significativamente os riscos cardíacos, incluindo quadros graves como a morte súbita durante o exercício”, afirma Aline.

O que a companhia faz pela mente

Se o coração agradece, a cabeça também sai ganhando, e não só a de quem corre. Para Higor Caldato (@drhigorcaldato), psiquiatra, especialista em psicoterapias, transtornos alimentares e obesidade. Sócio do Instituto Nutrindo Ideais (@nutrindoideais), treinar junto tem um efeito que se retroalimenta: famílias que se exercitam em conjunto relatam mais felicidade, menos solidão e melhora na relação entre pais e filhos. 

Em adolescentes, um ambiente familiar mais ativo melhora a qualidade do vínculo, o que por sua vez estimula a própria criança a se exercitar mais, relativizando um ciclo positivo com ganhos físicos e emocionais para os dois lados.

A ciência também respalda a ideia de que treinar acompanhado ajuda a manter o hábito a longo prazo. Um estudo com mais de 2.800 trabalhadores mostrou maior chance de continuar se exercitando depois de um ano entre quem treina com outras pessoas, e pesquisas com idosos associam o treino acompanhado a mais atividade física e melhor saúde mental do que o treino solitário. “Ter alguém do lado, um amigo, um familiar, dá aquele empurrão emocional que faz a pessoa não desistir”, resume Caldato.

Os efeitos sobre ansiedade, depressão e sono também têm respaldo robusto. Uma meta-análise recente com quase 80 mil participantes apontou o exercício aeróbico, uma categoria que inclui a corrida, como o de maior impacto na redução de sintomas de ansiedade e depressão entre todas as modalidades avaliadas. Uma revisão publicada no Lancet chega a colocar a corrida e a caminhada no mesmo patamar de eficácia da terapia cognitivo-comportamental para quadros leves a moderados de depressão. O sono também melhora: estudos mostram ganho na qualidade subjetiva do sono em pessoas com sintomas depressivos ou ansiosos que passam a se exercitar.

Mais do que hábito: um recado afetivo

Para Higor, o pai que corre ao lado do filho transmite algo que nenhum conselho verbal consegue igualar: disciplina e a mensagem implícita de “eu escolho estar aqui com você”. Pesquisas mostram que essa prática compartilhada melhora a comunicação e reduz conflitos na relação entre pais e filhos, principalmente na adolescência. “É basicamente ensinar, na prática, que cuidar do corpo e cuidar do vínculo emocional podem caminhar juntos”, finaliza.

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