As atividades, realizadas ao longo do primeiro semestre deste ano, valorizaram os saberes da vida, a memória dos territórios e o protagonismo de jovens, adultos e idosos da Educação de Jovens, Adultos e Idosos

Entre março e julho deste ano, o Projeto ALFA-EJA Brasil realizou 157 Oficinas de Leitura e Escrita, impactando 1.216 estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em 15 municípios das regiões Norte e Nordeste. Desenvolvida pelo Instituto de Educação e Direitos Humanos Paulo Freire (IEDHPF), em parceria com a Petrobras, a iniciativa promoveu um percurso formativo que integrou memória, território, comunicação, arte e participação comunitária, reafirmando os princípios da Educação Popular e fortalecendo o protagonismo de jovens, adultos e idosos.

As atividades envolveram educandos de Oiapoque (AP); Carauari e Coari (AM); Belém (PA); Fortaleza, Caucaia e Icapuí (CE); Alto do Rodrigues (RN); Conde, Araçás e São Francisco do Conde (BA); Santa Luzia do Itanhy e Brejo Grande (SE); Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho (PE). Em diferentes contextos sociais, culturais e territoriais, as oficinas criaram espaços de diálogo, escuta sensível e produção coletiva de conhecimentos, conectando os saberes da vida às práticas educativas desenvolvidas pelo projeto.

Alcance das oficinas

Além da ampla mobilização nos territórios, as oficinas registraram 789 educandos frequentes ao longo do semestre. O levantamento de perfil aplicado pelo Projeto contou com 631 respondentes, o equivalente a 77,9% dos participantes frequentes e 61,9% da meta prevista para o período, produzindo um panorama sobre quem são os estudantes atendidos e suas condições de vida.

“As Oficinas de Leitura e Escrita foram pensadas como estratégia de aprendizagem considerando a diversidade dos sujeitos, os contextos sociais e a equidade no acesso aos saberes e conhecimentos, permitindo que educandos trabalhadores possam resgatar e complementar sua formação e sua caminhada cidadã”, explica Francisca Elenir Alves, coordenadora-geral do Projeto ALFA-EJA Brasil.

Perfil dos educandos

O levantamento revelou um público majoritariamente feminino, com predominância de estudantes entre 40 e 60 anos, evidenciando o retorno de adultos e idosos à escola. Ao mesmo tempo, chamou atenção a presença significativa de educandos com menos de 18 anos, reforçando o fenômeno da juvenização da EJA e a necessidade de práticas pedagógicas capazes de dialogar com diferentes gerações.

Grande parte dos participantes possui renda familiar de até dois salários mínimos e acessa a internet exclusivamente pelo celular, com habilidades tecnológicas básicas. O perfil revela trabalhadores e trabalhadoras, mães, pais, avós e jovens que convivem na mesma modalidade de ensino, reforçando a importância de metodologias que valorizem suas trajetórias de vida e suas condições concretas de aprendizagem.

As seis oficinas foram organizadas como um processo contínuo de aprendizagem, inspirado na pedagogia de Paulo Freire. Ao longo dos encontros, os educandos partiram da leitura de suas próprias experiências para construir coletivamente narrativas, cartas, manifestações artísticas e propostas de intervenção em seus territórios, fortalecendo vínculos com a comunidade e reafirmando a educação como prática de transformação social. Confira aqui como foi cada uma delas.

Oficina 1: Paulo Freire e a gente – o mundo que a gente já lê

A primeira oficina acolheu os educandos e valorizou os conhecimentos construídos ao longo da vida. A partir da pergunta “O que você aprendeu que não foi na escola?”, surgiram relatos sobre trabalho, cuidado, cultivo, construção e outras experiências do cotidiano.

O encontro apresentou o conceito de Leitura do Mundo e os princípios dos Círculos de Cultura, mostrando que o conhecimento nasce da experiência concreta e das relações com o território. A atividade fortaleceu a autoestima dos participantes e reafirmou o direito de todos ao saber.

Oficina 2: Memórias – de si e do seu território

Na segunda oficina, os educandos refletiram sobre as transformações de seus bairros e comunidades, comparando o passado e o presente dos territórios onde vivem. As conversas despertaram memórias afetivas, fortaleceram o sentimento de pertencimento e ampliaram a leitura crítica da realidade.

Os participantes também relacionaram seus saberes cotidianos com conteúdos escolares e iniciaram o preenchimento do instrumento “Leitura de Quem Sou Eu!”, registrando suas trajetórias, expectativas e motivações para retornar à escola. O encontro terminou com a construção de um mural coletivo de histórias e saberes.

Oficina 3: Diálogos em muitas vozes: a carta que não precisa só de letras

A terceira oficina discutiu o direito à palavra em diferentes formas de expressão. Inspirados por músicas e pelo filme ‘Central do Brasil’, os educandos produziram as Cartas para Esperançar, escolhendo destinatários como familiares, trabalhadores da Petrobras ou o próprio “eu” do passado.

As cartas puderam ser faladas, desenhadas, ditadas ou escritas, valorizando igualmente todas as linguagens. A proposta criou um ambiente acolhedor para compartilhar sentimentos, lembranças e sonhos, reafirmando a esperança como ação transformadora, no sentido do verbo esperançar.

Oficina 4: Socializando nossas cartas: do diálogo pessoal ao coletivo

Na quarta oficina, os participantes apresentaram suas cartas em um momento de escuta sensível e celebração coletiva. Áudios foram reproduzidos, desenhos e colagens compartilhados e cartas lidas em voz alta, sempre acompanhados de aplausos e acolhimento da turma.

Todas as produções foram reunidas no Varal de Esperançar, símbolo da união das histórias individuais. A leitura coletiva do varal permitiu identificar temas comuns — como fé, luta, amor, trabalho e esperança — que serviram de base para as próximas oficinas.

Oficina 5: Grafite é escrita de resistência: das nossas vozes para o muro

A quinta oficina apresentou o grafite como linguagem artística e forma de diálogo com a comunidade. A atividade aproximou essa expressão urbana da cultura popular, com referências à Patativa do Assaré, à literatura de cordel e à escrevivência de Conceição Evaristo.

A partir das palavras e mensagens do Varal de Esperançar, os educandos criaram esboços de grafite em papel, experimentando técnicas simples de stencil, lettering, colagem e desenho livre. O processo valorizou a autoria, a criatividade e a força da mensagem coletiva.

Oficina 6: Intervenção e esperançar: planejando nossa marca na cidade

Na última oficina, os educandos reuniram os esboços produzidos, as palavras do varal e reflexões sobre o meio ambiente e o futuro das comunidades. As rodas de conversa abordaram memórias sobre rios, árvores, áreas verdes e o cuidado com a vida e com as próximas gerações.

O grupo escolheu coletivamente as frases e imagens que poderão representar uma intervenção artística da turma na cidade. Todo o planejamento foi registrado no Documento do Esperançar, símbolo do compromisso de transformar palavras em ação coletiva.

Vozes das educandas

Ao transformar palavras, memórias e sonhos em propostas de intervenção para seus territórios, as oficinas também despertaram mudanças nas trajetórias pessoais dos educandos. Agricultora e educanda de Coari (AM), Elisângela Araújo de Oliveira, conta que a produção das Cartas para Esperançar foi uma das experiências mais marcantes do percurso formativo. Segundo ela, a atividade fortaleceu sonhos que agora pretende colocar em prática. “Quero escrever um diário da minha vida e ser professora”, afirma. Em Cabo de Santo Agostinho (PE), Mara Soares também se emocionou ao escrever uma carta para a filha e revisitar sua trajetória de retorno aos estudos após três décadas longe da escola. “Demorei para escrever porque só depois de 30 anos retomei os estudos, aprendendo a ler e a escrever. Será muito útil para minha vida particular e social”, relata.

Histórias como as de Elisângela e Mara revelam como o Projeto ALFA-EJA Brasil vai além da alfabetização e da aprendizagem da leitura e da escrita. Ao reconhecer os saberes construídos ao longo da vida, fortalecer o protagonismo dos educandos e estimular a participação coletiva, as Oficinas de Leitura e Escrita contribuem para que jovens, adultos e idosos escrevam novos capítulos de suas histórias e reafirmem a educação como um direito e um caminho para transformar a si mesmos e os territórios onde vivem.

Sobre o Projeto ALFA-EJA Brasil

Realizado pelo Instituto de Educação e Direitos Humanos Paulo Freire, em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, o ALFA-EJA Brasil tem como missão promover formações, assessoria pedagógica, oficinas, encontros e ações culturais com foco no fortalecimento da EJA como política pública essencial. A iniciativa busca garantir o direito à educação para pessoas jovens, adultas e idosas e contribuir para o combate ao analfabetismo no país.

Ao longo dos próximos anos, até o final de 2027, o projeto desenvolverá uma série de ações em 15 municípios de forma presencial e a distância, e em 62 municípios de forma online. As principais iniciativas envolvem formações e assessorias pedagógicas para educadores e gestores da EJA, oficinas de leitura e escrita para educandos, o curso online “Como Alfabetizar com Paulo Freire”, com 24 videoaulas inéditas, a produção e distribuição de outros materiais pedagógicos, como cadernos temáticos de formação e podcasts, encontros comunitários, lives formativas e a criação do Centro de Referência da EJA (CREJA), voltado à memória, formação e articulação local.

Leitura do Mundo: uma análise sobre cada território

A primeira fase do projeto, chamada Leitura do Mundo, foi realizada pela equipe pedagógica do Instituto Paulo Freire, ao longo do mês de abril de 2025, nos 15 municípios que são atendidos de forma presencial e a distância. A etapa envolveu visitas, escutas e diálogos com educadores, gestores, movimentos sociais e comunidades locais, com o objetivo de compreender as realidades e desafios de cada território.

Lançamento oficial foi celebrado em quatro lives no Youtube

O projeto foi lançado em agosto de 2025 com transmissões ao vivo pelo canal da iPF.Tv no YouTube (https://www.youtube.com/@ipftvcanal), que reuniram representantes das Secretarias Municipais de Educação, gestores, educadores e comunidades locais. As lives apresentaram os objetivos e metodologias do projeto e reforçaram a valorização da cultura e da identidade regional.

Três Encontros Presenciais de Assessoria e Formação para as secretarias municipais de educação

Em setembro de 2025, o Projeto ALFA-EJA Brasil realizou formações presenciais em 15 municípios do Norte e Nordeste para secretarias, gestores e educadores da Educação de Jovens, Adultos e Idosos. As atividades apresentaram os resultados da primeira etapa da Leitura do Mundo, promoveram debates, reflexões e momentos culturais, fortalecendo vínculos e alinhando os próximos passos do projeto. Já o segundo encontro, realizado entre março e abril deste ano nos mesmos municípios, teve como tema central a “EJA como Direito Humano: práticas contextualizadas, trabalho e articulação territorial”. Em maio, aconteceu o terceiro encontro, com temáticas sobre diversidade, equidade racial e questões socioambientais. Também aconteceram os primeiros encontros EAD no mês de junho.

Oficinas de Leitura e Escrita com Educandos em 2025

Entre outubro e novembro de 2025, o Projeto promoveu as oficinas “Minha história dá um livro”, incentivando educandos da EJA a escreverem suas próprias autobiografias. A iniciativa aconteceu nos 15 municípios, reunindo educandos em atividades de leitura, escrita e reflexão sobre histórias de vida. Inspiradas na obra de Carolina Maria de Jesus e na metodologia freiriana, as oficinas valorizaram as experiências pessoais dos participantes, fortaleceram a autoestima e estimularam o protagonismo dos estudantes por meio da construção de narrativas sobre suas trajetórias.

Presença marcante na COP 30

A participação do ALFA-EJA Brasil na COP 30, em Belém, reforçou o compromisso do projeto com o debate sobre justiça climática, desigualdades socioambientais e educação popular. Representado pelo Instituto Paulo Freire, o projeto integrou rodas de conversa, palestras e atividades formativas que relacionaram a Educação de Jovens e Adultos (EJA) aos desafios climáticos vividos por populações amazônicas. A agenda incluiu participação em espaços como o Puxirum de Mulheres Defensoras da Amazônia, atividades no estande do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e debates na Cúpula dos Povos, onde foram compartilhadas experiências dos territórios e reflexões sobre os impactos da crise climática vivida nas comunidades dos municípios participantes do projeto.

Curso Como Alfabetizar com Paulo Freire

Já iniciou, gratuitamente, o curso online “Como Alfabetizar com Paulo Freire”, que faz parte do Projeto ALFA-EJA Brasil. A formação é destinada a educadores da EJA de 77 municípios das regiões Norte e Nordeste. Inspirado na educação freiriana, o curso propõe não apenas metodologias, teorias e práticas de alfabetização, mas também uma leitura crítica da realidade e a valorização da EJA como direito fundamental e instrumento de transformação social. O curso, com certificação de até 90 horas de duração, está organizado em três módulos com 24 videoaulas inéditas, materiais complementares e lives interativas. A formação oferece acompanhamento pedagógico, certificação e a possibilidade de os participantes se tornarem coautores de um e-book ao final do curso, inaugurando ou continuando suas trajetórias educacionais como novos autores e autoras de importantes produções educacionais e também artístico-culturais.

Sobre o Instituto de Educação e Direitos Humanos Paulo Freire

Fundado em 1991, o Instituto de Educação e Direitos Humanos Paulo Freire (Instituto Paulo Freire) atua na promoção da educação, dos direitos humanos e da justiça social, inspirado no legado e nos princípios de Paulo Freire.

Por meio de projetos, pesquisas, formações, assessorias e ações de incidência, o Instituto contribui para o fortalecimento da educação pública, da participação cidadã, da democracia e da garantia de direitos, especialmente para populações historicamente excluídas.

Integrante de uma rede internacional presente em mais de 90 países, o Instituto Paulo Freire articula educadores, pesquisadores, movimentos sociais, organizações da sociedade civil e gestores públicos em torno da construção de sociedades mais justas, democráticas e sustentáveis.

Share.
Leave A Reply