Com mais de 5 bilhões de registros no SUS, integração de dados avança como estratégia de eficiência e abre espaço para novos modelos de gestão na saúde
A quantidade de informação produzida diariamente pelo sistema de saúde brasileiro é gigantesca. Uma consulta deixa registros, um exame gera resultados, uma internação acumula procedimentos, prescrições e informações assistenciais. Multiplicado por milhões de pacientes, esse volume forma uma das maiores bases potenciais de conhecimento sobre a operação da saúde no país.
O desafio agora é fazer essas informações conversarem entre si, uma questão que começa a mobilizar tanto o poder público quanto empresas que atuam na integração entre serviços médicos, laboratoriais e tecnologia.
Para Márcio Oliveira, especialista em desenvolvimento de novos negócios na área de saúde e atuante no desenvolvimento da MedHub, o problema deixou de ser a disponibilidade de informações. O desafio está em conectar bases produzidas em diferentes pontos da jornada do paciente e transformá-las em inteligência capaz de apoiar decisões de gestão.
Farmacêutico-bioquímico, com especialização em análises clínicas e MBA pela Fundação Getulio Vargas, Oliveira atua na gestão de um ecossistema que integra operações médicas e laboratoriais, reúne mais de 2 mil profissionais de saúde e está presente também em unidades de pronto atendimento e hospitais. A experiência com operações dessa escala está na origem da MedHub, frente desenvolvida para integrar informações de diferentes áreas e transformá-las em indicadores de gestão, eficiência e desenvolvimento de novos negócios.
“O problema da saúde hoje não é falta de dados, mas a fragmentação. Temos informações sendo produzidas o tempo todo em laboratórios, hospitais e atendimentos médicos, mas elas ainda estão dispersas. Integrá-las é o que permite transformar volume de informação em inteligência para o negócio”, afirma Oliveira.
O movimento encontra paralelo no próprio sistema público. A Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), plataforma oficial de interoperabilidade do Ministério da Saúde, já reúne mais de 5 bilhões de registros. Em 11 de agosto, o governo federal iniciou a migração da estrutura para a Nuvem Soberana do SUS, projeto desenvolvido em parceria com o Serpro para ampliar o controle sobre a infraestrutura que sustenta dados, sistemas e serviços digitais do sistema público.
A iniciativa ocorre no mesmo mês em que o Conselho Nacional de Saúde aprovou a Política Nacional de Informação e Saúde Digital, voltada à integração de dados e ao fortalecimento da eficiência dos serviços do SUS.
A discussão ultrapassa o setor público. Hospitais, laboratórios, clínicas e operadoras também produzem grandes volumes de informações, muitas vezes distribuídas por sistemas diferentes. Integrá-las começa a deixar de ser apenas um problema de tecnologia para se tornar uma questão de gestão.
Na prática, cruzar dados de diferentes áreas pode permitir que um gestor identifique padrões que isoladamente seriam mais difíceis de perceber, como concentração de demanda em determinados horários, utilização de equipes, volume de exames, produtividade, recorrência de procedimentos ou pontos de pressão da operação.
Para Márcio, a análise conjunta permite avançar de uma leitura retrospectiva — saber apenas o que aconteceu — para uma utilização dos dados como suporte às decisões.
“Quando conseguimos relacionar produção médica, exames, atendimentos e outros indicadores da operação, começamos a identificar onde existe desperdício, onde falta capacidade e onde pode haver espaço para aprimorar ou desenvolver um serviço. O dado passa a ter uma função estratégica”, afirma.
A busca por integração também está presente na saúde suplementar. O padrão TISS, estabelecido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), é obrigatório para as trocas eletrônicas de dados de atenção à saúde entre agentes do setor, com o objetivo de padronizar informações e favorecer a interoperabilidade entre os sistemas
Mais do que acumular dados, portanto, a próxima etapa da digitalização da saúde passa pela capacidade de organizá-los e interpretá-los.
Essa transição, porém, também esbarra em limites jurídicos. Informações relacionadas à saúde exigem regras específicas de segurança, privacidade e acesso. Na RNDS, o acesso aos dados dos pacientes é restrito e sua utilização deve obedecer às finalidades previstas em lei, enquanto o próprio padrão TISS possui requisitos destinados a assegurar sigilo e confidencialidade.
Lucas Paglia, advogado especializado em direito digital, cibersegurança e proteção de dados, alerta que o aumento da integração entre sistemas amplia também as responsabilidades das instituições. “O risco não desaparece quando os dados passam a circular com mais eficiência, ele apenas migra para outro lugar: o da segurança da informação e da responsabilização em caso de falha”, afirma.
A questão coloca empresas de saúde diante de um desafio duplo: criar estruturas capazes de conectar informações sem transformar a ampliação do uso dos dados em aumento de exposição jurídica e operacional.
Para Márcio Oliveira, essa combinação entre integração, governança e capacidade de interpretação tende a determinar o valor que as organizações conseguirão extrair das informações que já produzem diariamente.
“A vantagem não está simplesmente em ter milhões de registros armazenados. Está em conseguir transformar esses registros em respostas para problemas reais da operação e, a partir disso, tomar decisões melhores”, conclui.
A disputa da saúde digital, portanto, tende a ser menos sobre quem consegue armazenar mais informações e mais sobre quem consegue fazer sistemas diferentes conversarem, dentro dos limites legais, e transformar registros dispersos em decisões.
Sobre: Márcio Oliveira é especialista em desenvolvimento de novos negócios na área de saúde, com trajetória voltada à gestão, inovação e estruturação de operações no setor. Farmacêutico-bioquímico de formação e com MBA pela Fundação Getulio Vargas, atua no desenvolvimento de negócios envolvendo serviços médicos, análises clínicas, tecnologia e integração de operações, com experiência na identificação de oportunidades e criação de novos modelos para o mercado de saúde.







