O INCA estima 8.020 novos casos de câncer de ovário por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica mostra que, entre os registros hospitalares de 2023 classificados nos estádios I a IV, 69,1% estavam nos estádios III ou IV, quando a doença apresenta maior extensão. Em 31,3% dos registros hospitalares, não havia informação sobre o estadiamento. Outro levantamento da entidade identificou 25.693 óbitos que tiveram o câncer de ovário registrado como causa entre 2020 e 2025
O Brasil deve registrar 8.020 novos casos de câncer de ovário por ano entre 2026 e 2028, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA). O tumor pode não provocar sintomas perceptíveis nas fases iniciais. Quando presentes, as manifestações frequentemente são inespecíficas e podem ser confundidas com problemas gastrointestinais ou urinários. Também não existe atualmente um exame recomendado para o rastreamento de rotina de mulheres sem sintomas e sem risco aumentado. Levantamento realizado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) a partir do Registro Hospitalar de Câncer (RHC) identificou 1.244 registros hospitalares de câncer de ovário em 2023. Em 855, equivalentes a 68,7%, havia informação sobre o estadiamento. Nos outros 389 registros (31,3%) do total, essa informação não estava disponível.
Entre os registros classificados nos estádios I a IV, 588 (69,1%) estavam nos estádios III ou IV, considerados fases avançadas, quando a doença apresenta maior disseminação e pode atingir outras estruturas do abdômen ou partes mais distantes do organismo. Foram 270 no estádio III e 318 no IV (metástase à distância). Outros 263 registros estavam nos estádios I ou II, quando o tumor está mais restrito à região onde surgiu ou apresenta menor extensão: 200 no estádio I e 63 no II. Quatro registros da base aparecem classificados como estádio 0 e não foram considerados neste cálculo, já que os sistemas usuais de estadiamento do câncer de ovário invasivo começam no estádio I.
Os dados do RHC refletem os casos atendidos nos hospitais participantes da base e não correspondem a todos os diagnósticos de câncer de ovário ocorridos no Brasil. Além disso, como quase um terço dos registros não tinha informação sobre o estadiamento, os percentuais referentes à extensão da doença devem ser interpretados considerando essa limitação.
O câncer de ovário pode não causar sintomas nas fases iniciais. Quando surgem, as manifestações tendem a ser pouco específicas e podem incluir inchaço persistente da barriga, dor abdominal ou pélvica, sensação de saciedade após comer pouco, perda de apetite, alterações intestinais, necessidade de urinar com maior frequência, cansaço, náuseas, indigestão e perda de peso sem explicação.
Conforme explica a cirurgiã oncológica Viviane Rezende de Oliveira, vice-presidente da SBCO, a ausência de um exame de rastreamento torna a atenção a essas manifestações ainda mais importante. “Hoje, não temos um exame recomendado para rastrear o câncer de ovário em todas as mulheres sem sintomas. Por isso, é importante investigar alterações que surgem e persistem, mesmo que inicialmente pareçam pouco específicas. Também precisamos identificar as mulheres que apresentam maior risco para a doença, como aquelas com histórico familiar ou determinadas alterações genéticas, para que recebam acompanhamento individualizado”.
Quando há suspeita de câncer de ovário, a investigação pode envolver exame clínico e ginecológico, ultrassonografia transvaginal e exames de imagem, como tomografia computadorizada ou ressonância magnética. O exame de sangue CA-125 também pode ser solicitado, mas seu resultado isoladamente não confirma a doença, já que o marcador pode estar alterado por outras condições.
Algumas mulheres apresentam risco aumentado para câncer de ovário. Entre os fatores associados à doença estão o avanço da idade, excesso de peso, histórico familiar e alterações genéticas herdadas. Mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, também relacionadas ao câncer de mama, estão entre as mais conhecidas. A avaliação genética, porém, não se limita às mulheres com histórico familiar. Dependendo do tipo de tumor, o aconselhamento e os testes genéticos podem ser indicados mesmo quando não existem outros casos conhecidos de câncer na família. Os resultados também podem fornecer informações importantes para a escolha do tratamento.
Após a confirmação do câncer, os exames ajudam a determinar o estádio da doença, informação utilizada para orientar o tratamento. Nos estádios iniciais, o tumor está mais restrito à região onde surgiu. Nos estádios III e IV, apresenta maior disseminação e pode atingir outras estruturas do abdômen ou partes mais distantes do organismo.
Mortalidade no Brasil
A mortalidade foi analisada em outro levantamento da SBCO, realizado a partir do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. Entre 2020 e 2025, foram registrados 25.693 óbitos que tiveram o câncer de ovário como causa básica. O número passou de 3.921 em 2020 para 4.567 em 2024. Em 2025, foram contabilizados 4.509 óbitos, mas os dados desse último ano ainda são preliminares e podem sofrer atualização.
A maior concentração ocorreu a partir dos 50 anos. Foram 5.344 óbitos entre mulheres de 50 a 59 anos, 7.052 entre 60 e 69 anos, 5.600 entre 70 e 79 anos e 3.547 entre aquelas com 80 anos ou mais. Juntas, essas faixas concentraram 83,8% dos óbitos registrados no período. Os dados de novos casos, mortalidade e estadiamento vêm de fontes e períodos diferentes e não representam o mesmo grupo de mulheres. Os 8.020 casos anuais são uma estimativa do INCA para cada ano entre 2026 e 2028. Os 25.693 óbitos foram identificados pela SBCO no SIM entre 2020 e 2025 e podem envolver mulheres diagnosticadas em diferentes anos. Já as informações sobre a extensão da doença foram levantadas pela entidade no RHC e correspondem aos registros hospitalares de 2023. Portanto, os números não permitem estabelecer uma relação direta entre a quantidade de novos casos e de óbitos.
A cirurgia é uma das principais formas de tratamento do câncer de ovário e sua extensão depende do tipo do tumor, dos locais atingidos e das condições clínicas da paciente. A operação pode envolver a retirada dos ovários, das tubas uterinas, do útero e de outras estruturas comprometidas. Em casos selecionados identificados em fases iniciais, pode ser possível preservar estruturas relacionadas à fertilidade. Diante da complexidade da cirurgia, é indicado que o procedimento seja realizado em centros especializados, com profissionais experientes, uma vez que os resultados cirúrgicos estão diretamente relacionados com o prognóstico.
A quimioterapia também é utilizada no tratamento de muitas pacientes e pode ser realizada antes ou depois da cirurgia. Características moleculares do tumor, incluindo alterações relacionadas aos genes BRCA1 e BRCA2, também podem ajudar na escolha do tratamento. O planejamento deve considerar as características da doença e da paciente e pode envolver diferentes especialidades com experiência no tratamento dos tumores ginecológicos.
Segundo o cirurgião oncológico Paulo Henrique de Sousa Fernandes, presidente da SBCO, a extensão da doença está entre as informações consideradas nessa decisão. “Quando o câncer de ovário é diagnosticado, precisamos saber onde está a doença e quanto ela se espalhou para definir a estratégia de tratamento. Em algumas pacientes, a cirurgia é realizada primeiro e a quimioterapia vem depois. Em outras, começamos pela quimioterapia e realizamos a cirurgia posteriormente. Nos casos em que a operação está indicada, um dos objetivos é retirar toda a doença visível sempre que isso for possível e seguro”, conclui.
Sobre a SBCO – Fundada em 31 de maio de 1988, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) é uma entidade sem fins lucrativos, com personalidade jurídica própria, que agrega cirurgiões oncológicos e outros profissionais envolvidos no cuidado multidisciplinar ao paciente com câncer. Sua missão é também promover educação médica continuada, com intercâmbio de conhecimentos, que promovam a prevenção, detecção precoce e o melhor tratamento possível aos pacientes, fortalecendo e representando a cirurgia oncológica brasileira. É presidida pelo cirurgião oncológico Paulo Henrique Fernandes (2025-2027).







