Especialista explica por que a iniciativa pode marcar uma nova fase da atuação da autoridade e elevar a pressão por compliance e governança de dados nas empresas
A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) avalia a abertura de processos sancionadores contra 21 entidades brasileiras, em uma iniciativa que pode marcar uma nova etapa na aplicação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A medida reforça a percepção de que o órgão regulador caminha para uma atuação mais rigorosa, ampliando o uso de penalidades além das ações orientativas.
Caso os procedimentos avancem, a decisão consolidará a ANPD como uma autoridade fiscalizadora cada vez mais atuante. Desde a entrada em vigor da LGPD, a maior parte de sua atuação esteve concentrada em orientações, recomendações e medidas corretivas, com número reduzido de sanções formais.
Para especialistas, esse novo cenário tende a aumentar a pressão sobre organizações que tratam grandes volumes de informações pessoais, especialmente plataformas digitais, marketplaces e empresas de tecnologia.
Segundo o especialista em direito digital e proteção de dados Lucas Paglia, o principal impacto vai além dos casos em análise. “Essa movimentação demonstra o amadurecimento da autoridade reguladora e reforça sua capacidade sancionatória. Mais importante do que os procedimentos específicos é a mensagem enviada às empresas: o nível de exigência em relação à conformidade e à governança de dados está aumentando”, afirma.
Na avaliação de Paglia, organizações que dependem intensamente do tratamento de informações pessoais precisam revisar seus programas de compliance e fortalecer seus mecanismos de governança.
“Empresas que têm a coleta e o tratamento de dados como parte central do negócio devem enxergar esse cenário como um alerta estratégico. O custo da não conformidade tende a crescer, tanto sob o aspecto jurídico quanto reputacional”, diz.
A iniciativa acompanha uma tendência internacional de fortalecimento da fiscalização sobre privacidade. Em diversos países, autoridades reguladoras têm recorrido com maior frequência a sanções para assegurar o cumprimento da legislação.
Se confirmada, a abertura dos processos poderá estabelecer um precedente relevante para a aplicação da LGPD, influenciando políticas de governança, estratégias de produtos e práticas de tratamento de dados em diferentes setores da economia.
A expectativa agora recai sobre os próximos desdobramentos da análise conduzida pela ANPD e sobre os efeitos que uma eventual decisão poderá produzir no ambiente regulatório brasileiro.
Sobre
Lucas Paglia é advogado especializado em direito digital, com foco em cybersegurança, proteção de dados e compliance regulatório. Vice-Presidente da Rede Governança Brasil (RGB) e uma das principais referências nacionais em proteção de dados, governança e cibersegurança, com especialização pela Universidade de Harvard. Também é membro da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e possui forte atuação institucional em entidades da América Latina. Como educador, já formou mais de 4 mil alunos em proteção de dados, é professor em instituições como Puccamp e SEBRAE Nacional.




