Com procedimentos na região abdominal entre os mais realizados no Brasil e maior participação masculina na cirurgia plástica, especialistas alertam que a recuperação envolve não apenas cicatrização, mas também postura, respiração, mobilidade e função do tronco
Para a fisioterapeuta Dra. Mariana Milazzotto, o resultado de cirurgias como lipoaspiração abdominal e abdominoplastia depende não só da técnica cirúrgica, mas também da forma como o corpo se reorganiza nas semanas seguintes ao procedimento.
O aumento da procura masculina por procedimentos estéticos na região abdominal acompanha uma mudança mais ampla no comportamento em relação à aparência e ao cuidado com o corpo. Dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética mostram que o Brasil realizou cerca de 2,35 milhões de cirurgias plásticas em 2024, liderando o ranking mundial de procedimentos cirúrgicos. No país, a lipoaspiração foi a cirurgia estética mais realizada, com 289.766 procedimentos, enquanto a abdominoplastia somou 192.961 casos e ficou entre as cinco cirurgias mais frequentes.
No público masculino, a participação também avançou. Segundo dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, os homens já respondem por cerca de 30% dos procedimentos estéticos realizados no país, ante 5% há cinco anos, com aumento de 72 mil para 276 mil intervenções anuais. Entre os procedimentos mais procurados por eles está a lipoaspiração, frequentemente associada à busca por melhor definição corporal.
Para a fisioterapeuta Dra. Mariana Milazzotto, o crescimento desse tipo de demanda reforça a necessidade de ampliar o debate sobre o pós-operatório. “A cirurgia modifica o contorno, mas também interfere na forma como o corpo se movimenta e se organiza depois. A região abdominal participa da postura, da estabilização do tronco, da mecânica respiratória e de vários movimentos do dia a dia. Quando a recuperação é tratada apenas como um período de espera, parte importante do processo acaba sendo negligenciada”, afirma.
Pós-operatório envolve mais do que cicatriz
Em procedimentos como abdominoplastia e lipoaspiração abdominal, o organismo responde com edema, dor, sensação de repuxamento, rigidez e redução temporária da mobilidade. Essas manifestações fazem parte da resposta inflamatória ao procedimento, mas podem interferir na rotina, no conforto e na retomada progressiva das atividades.
Segundo Mariana Milazzotto, é comum que o paciente associe recuperação a repouso e cicatrização visível, sem considerar que o corpo passa por um processo mais amplo de reorganização. “Não é só a pele que muda. A parede abdominal pode ficar mais sensível, a postura tende a se alterar, a respiração pode ficar mais curta e o paciente muitas vezes passa a se movimentar com receio. Tudo isso precisa ser observado no pós-operatório”, explica.
Funcionalidade abdominal também precisa ser preservada
Do ponto de vista fisioterapêutico, a recuperação após cirurgia abdominal envolve preservar não apenas o resultado estético, mas também a funcionalidade da região operada. A parede abdominal participa da estabilização do tronco, do controle postural e da transferência de força em movimentos como caminhar, levantar, tossir e mudar de posição.
“Quando essa função não é considerada, o paciente pode compensar com a lombar, manter um padrão respiratório inadequado, evitar certos movimentos e prolongar desconfortos que poderiam ser melhor manejados com orientação e acompanhamento”, afirma Mariana Milazzotto.
O que o paciente precisa saber sobre a recuperação
Segundo Milazzotto, um dos principais pontos é entender que o pós-operatório não termina com a alta médica imediata. A qualidade da recuperação depende de condutas adotadas ao longo das semanas seguintes e da forma como o corpo responde ao procedimento.
Entre os cuidados mais importantes, a especialista destaca:
- seguir corretamente as orientações médicas e fisioterapêuticas;
- evitar esforços antes do tempo recomendado;
- observar dor persistente, edema excessivo, endurecimentos e alterações de sensibilidade;
- respeitar o tempo de cicatrização dos tecidos;
- retomar a mobilidade de forma gradual e orientada.
“Há pacientes muito atentos ao resultado visual e pouco atentos à forma como o corpo está funcionando. Só que conforto, mobilidade, postura e qualidade do movimento influenciam tanto a recuperação quanto o próprio resultado no médio prazo”, diz.
O aumento da participação masculina em cirurgias abdominais ajuda a ampliar a discussão sobre o que vem depois do procedimento. Para especialistas, segurança, cicatrização e funcionalidade não devem ser tratadas como etapas secundárias, mas como parte do resultado final.
“A estética importa, mas o abdômen não cumpre apenas um papel visual. Ele participa do movimento, da sustentação e da estabilidade do corpo. Preservar essa função no pós-operatório é parte essencial de uma recuperação adequada”, conclui Mariana Milazzotto.




