Levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), com dados dos Registros Hospitalares de Câncer (RHC), analisou quase 118 mil mulheres diagnosticadas entre 2020 e 2023. Entre aquelas de até 39 anos, 14,4% foram diagnosticadas nos estádios 0 ou I (que correspondem, respectivamente, à doença in situ e ao câncer invasivo na fase mais inicial), enquanto 85,6% receberam o diagnóstico nos estádios II, III ou IV

Levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) analisou quase 118 mil mulheres diagnosticadas com câncer de mama entre 2020 e 2023. Entre os casos com estadiamento conhecido, 12.423 ocorreram em mulheres de até 39 anos. Desse grupo, apenas 1.792, o equivalente a 14,4%, receberam o diagnóstico nos estádios 0 ou I, que correspondem, respectivamente, à doença in situ, quando ainda não houve invasão do tecido mamário, e ao câncer invasivo em sua fase mais inicial. As outras 10.631 mulheres (85,6%) foram diagnosticadas nos estádios II, III ou IV. A análise da SBCO, em alusão à campanha Outubro Rosa 2026, foi realizada a partir de dados dos Registros Hospitalares de Câncer (RHC).

A classificação por estádios indica a extensão do câncer e considera fatores como tamanho do tumor, comprometimento de linfonodos e presença de metástases. No estádio 0, a doença ainda é in situ; no I, o câncer já é invasivo, mas permanece em fase inicial. O estádio II abrange situações diferentes, desde tumores maiores restritos à mama até tumores menores que atingiram linfonodos próximos e ainda pode ser considerado doença inicial em determinados casos. No estádio III, há maior extensão local ou comprometimento de linfonodos, mas sem metástases distantes. O estádio IV corresponde à doença metastática, quando outros órgãos ou tecidos são atingidos.

A diferença entre as faixas etárias aparece também quando são analisadas as mulheres mais velhas. Entre aquelas de 40 a 49 anos, foram registrados 26.592 casos, dos quais 20.380 estavam nos estádios II, III ou IV, correspondendo a 76,6%. Isso significa que 23,4% estavam nos estádios 0 ou I. Entre as mulheres com 50 anos ou mais, foram 78.927 casos, sendo 56.721 nos estádios II, III ou IV, o equivalente a 71,9%, enquanto 28,1% foram diagnosticadas nos estádios 0 ou I.

Para mulheres de risco habitual, ou seja, sem fatores conhecidos que aumentem significativamente a probabilidade de desenvolver câncer de mama, sociedades médicas brasileiras recomendam o rastreamento por mamografia a partir dos 40 anos. Já aquelas com risco aumentado, como mulheres com determinadas alterações genéticas hereditárias ou histórico familiar relevante, podem ter indicação de acompanhamento individualizado e de início mais precoce dos exames, conforme avaliação médica.

De acordo com Juliano Rodrigues Cunha, cirurgião oncológico, mastologista e diretor de Comunicação da SBCO, o levantamento chama a atenção para a diferença observada entre as faixas etárias. “Os dados mostram que, entre as mulheres com câncer de mama até os 39 anos registradas no período analisado, apenas uma parcela pequena recebeu o diagnóstico nos estádios 0 ou I. Isso não significa que todos os demais casos sejam cânceres avançados, porque o estádio II abrange diferentes situações e pode incluir doença ainda considerada inicial. Mas a diferença em relação às mulheres de maior idade reforça a importância de investigar alterações persistentes nas mamas, inclusive antes da idade recomendada para o início do rastreamento da população de risco habitual”, explica Cunha.

Entre as mulheres de até 39 anos, os estádios II e III concentraram o maior número de registros, com 4.477 e 4.322 casos, respectivamente. O dado também reforça que estadiamento e agressividade não são sinônimos. O estádio informa principalmente a extensão da doença no organismo, enquanto o comportamento biológico do câncer depende de outras características das células tumorais.

Pesquisas anteriores já identificaram diferenças nas características do câncer de mama diagnosticado em mulheres jovens. Um estudo brasileiro publicado em 2019 pelo Grupo Brasileiro de Estudos do Câncer de Mama (GBECAM), com dados do registro prospectivo AMAZONA III, analisou 2.888 pacientes, das quais 486 tinham até 40 anos. Na comparação com mulheres acima dos 40 anos, as pacientes mais jovens apresentaram maior frequência de tumores no estádio III, tumores maiores e de grau 3, além de maior presença de alguns subtipos, como HER2-positivo, luminal B e triplo-negativo. Elas também apresentavam sintomas com maior frequência no momento do diagnóstico.

“Além da maior proporção de diagnósticos fora dos estádios 0 e I, esse grupo merece atenção porque muitas dessas mulheres ainda estão abaixo da idade de início do rastreamento mamográfico. É importante conhecer as próprias mamas, assim como o histórico familiar de câncer de mama e ovário. Além disso, é recomendável que familiares  com câncer de mama diagnosticado entre 35-45 anos procurem avaliação diante de alterações persistentes. O objetivo é garantir acesso oportuno à investigação e ao tratamento”, afirma a cirurgiã oncológica e vice-presidente da SBCO, Viviane Rezende de Oliveira.

Câncer de mama pode apresentar diferentes características biológicas

Além do estádio, que informa a extensão da doença, a definição do tratamento leva em consideração características biológicas do tumor. Entre elas estão a presença de receptores para os hormônios estrogênio e progesterona e a expressão da proteína HER2. Essas informações são obtidas por meio da análise do tecido tumoral e ajudam a identificar tratamentos aos quais o câncer pode responder.

Os tumores luminais apresentam receptores hormonais, o que significa que suas células possuem proteínas às quais hormônios como estrogênio e/ou progesterona podem se ligar e estimular o crescimento. Por isso, esses cânceres podem responder à hormonioterapia, tratamento que bloqueia a ação desses hormônios ou reduz sua disponibilidade no organismo. Os tumores luminais são frequentemente divididos em luminal A e luminal B. De maneira geral, o luminal A tende a apresentar menor proliferação celular, enquanto o luminal B reúne características associadas a maior proliferação e pode apresentar comportamento diferente.

O câncer de mama HER2-positivo apresenta expressão aumentada da proteína HER2, relacionada à multiplicação das células. O desenvolvimento de terapias-alvo mudou significativamente o tratamento desse subtipo. Diferentemente da quimioterapia, que atua sobre células que se multiplicam rapidamente, as terapias-alvo são desenvolvidas para interferir em características específicas das células tumorais. No câncer HER2-positivo, existem medicamentos capazes de bloquear ou explorar especificamente essa proteína, e diferentes terapias anti-HER2 podem ser utilizadas conforme as características e a extensão da doença.

Já o câncer de mama triplo-negativo recebe esse nome porque não apresenta receptores de estrogênio nem de progesterona e não apresenta expressão aumentada de HER2. Dessa forma, a hormonioterapia e os medicamentos direcionados ao HER2 não são indicados para esse subtipo. A quimioterapia continua tendo papel importante no tratamento, mas as opções terapêuticas se ampliaram nos últimos anos. Dependendo das características e da extensão da doença, podem ser utilizados imunoterapia e medicamentos mais recentes, como os anticorpos conjugados, que utilizam um anticorpo para levar um agente antitumoral até células que apresentam determinado alvo.

Essas classificações biológicas são diferentes da classificação histológica. O carcinoma invasivo de tipo não especial, historicamente chamado de carcinoma ductal invasivo, por exemplo, é o tipo histológico mais frequente de câncer de mama e pode apresentar diferentes perfis biológicos (luminal, HER2-positivo ou triplo-negativo). Por isso, essas denominações não devem ser apresentadas como categorias equivalentes.

Câncer de mama resulta de diferentes fatores

O câncer de mama, assim como outros tipos de câncer, é uma doença multifatorial. Seu desenvolvimento envolve alterações genéticas que fazem com que determinadas células passem a crescer e se multiplicar de maneira descontrolada. Essas alterações podem ser adquiridas ao longo da vida ou, em uma parcela dos casos, estar relacionadas a variantes genéticas herdadas que aumentam a predisposição ao desenvolvimento da doença.

Entre os fatores associados ao risco de câncer de mama estão idade, excesso de peso, sedentarismo, consumo de bebidas alcoólicas e aspectos hormonais e reprodutivos. Há também fatores relacionados à predisposição hereditária. Variantes patogênicas herdadas em genes como BRCA1 e BRCA2, por exemplo, estão associadas a aumento do risco de câncer de mama e de outros tumores.

“Quando falamos em câncer de mama, é importante entender que não existe uma única causa para o desenvolvimento da doença. Embora todo câncer envolva alterações genéticas nas células, apenas uma parcela dos casos está relacionada a uma predisposição hereditária. Conhecer o histórico pessoal e familiar ajuda a identificar mulheres que podem precisar de avaliação específica e de estratégias individualizadas de acompanhamento e redução de risco, inclusive antes dos 40 anos”, explica Viviane Rezende de Oliveira.

Segundo as estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), são esperados cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Desconsiderando os tumores de pele não melanoma, são aproximadamente 518 mil casos anuais. Para o câncer de mama feminina, são estimados 78.610 novos casos por ano no período, correspondendo a cerca de 30% dos novos casos de câncer entre as mulheres quando excluídos os tumores de pele não melanoma.

“Os números mostram a dimensão do câncer de mama no Brasil. Além de realizar o rastreamento conforme a indicação para cada mulher, é importante estar atenta a alterações que podem estar relacionadas à doença, como nódulo na mama ou na axila, mudanças na pele ou no formato da mama, retração do mamilo e saída espontânea de secreção pelo mamilo. Qualquer alteração persistente deve ser avaliada por um profissional de saúde, independentemente da idade”, finaliza Cunha.

Sobre a SBCO – Fundada em 31 de maio de 1988, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) é uma entidade sem fins lucrativos, com personalidade jurídica própria, que agrega cirurgiões oncológicos e outros profissionais envolvidos no cuidado multidisciplinar ao paciente com câncer. Sua missão é também promover educação médica continuada, com intercâmbio de conhecimentos, que promovam a prevenção, detecção precoce e o melhor tratamento possível aos pacientes, fortalecendo e representando a cirurgia oncológica brasileira. É presidida pelo cirurgião oncológico Paulo Henrique de Sousa Fernandes (2025-2027).

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