Conflitos, desentendimentos e crises fazem parte de qualquer relacionamento. Mas nem todo sofrimento afetivo tem origem na dinâmica do casal. Muitas vezes, o que parece uma incompatibilidade esconde um adoecimento mental não tratado, que transborda para o vínculo e compromete a qualidade de vida de ambos. O dia dos namorados, comemorado na próxima sexta-feira (12), pode levantar esta reflexão.
Higor Caldato (@drhigorcaldato), psiquiatra, especialista em psicoterapias, transtornos alimentares e obesidade. Sócio do Instituto Nutrindo Ideais (@nutrindoideais), explica como identificar quando o problema exige acompanhamento profissional, como apoiar sem se adoecer e de que forma reconhecer um relacionamento que está fazendo mal.
Quando a doença interfere no amor
A saúde mental não tratada não fica contida dentro de quem a vive: ela transborda para o relacionamento. A pessoa com ansiedade não tratada tende a interpretar situações neutras como ameaças, o que gera ciúme excessivo, necessidade constante de reasseguramento e dificuldade de confiar. A depressão, por sua vez, rouba a capacidade de sentir prazer, inclusive o prazer de estar com quem se ama. O parceiro começa a se sentir insuficiente sem entender que o problema não é o relacionamento, é a doença.
O que complica ainda mais esse cenário é que a pessoa adoecida frequentemente não sabe que está adoecida. Ela interpreta o próprio sofrimento como problema do relacionamento, e o vínculo vira o alvo de algo que tem outra origem. “Tratar é, muitas vezes, a coisa mais generosa que alguém pode fazer pelo próprio vínculo”, afirma Caldato.
Crise de casal ou quadro clínico: como diferenciar
Uma crise de relacionamento tem uma causa identificável: uma traição, uma perda, uma mudança de vida. Ela dói muito, mas há um antes e um depois. O sofrimento tem endereço. Um quadro clínico é diferente: o sofrimento é persistente, permeia todas as áreas da vida, não melhora mesmo quando o problema pontual é resolvido e frequentemente antecede o próprio relacionamento.
O psiquiatra oferece um marcador simples e prático: se a dor some quando o problema some, é crise. Se a dor persiste mesmo depois de resolvido o conflito, merece investigação. Frases como “eu sempre fui assim” ou “em todos os meus relacionamentos acontece a mesma coisa”, somadas a oscilações de humor sem razão aparente, são sinais de que estamos diante de algo que precisa de avaliação profissional, não apenas de uma conversa de casal.
Apoiar sem se adoecer
Para quem convive com um parceiro em sofrimento mental, o psiquiatra destaca três pontos fundamentais. O primeiro é entender que amor não cura o transtorno mental. Embora pareça óbvio quando dito assim, na prática muita gente tenta e se machuca tentando. Amar alguém com depressão não vai fazer a depressão ir embora, e quando isso não acontece a pessoa sente que falhou.
O segundo ponto é que apoiar não é absorver. Existe uma diferença entre ser uma rede de suporte e se tornar o terapeuta, o médico e o bombeiro emocional do outro. Quando alguém assume esse papel sem limites, adoece junto. Isso tem nome: codependência. O parceiro precisa ter sua própria vida, seus próprios espaços, sua própria saúde mental. “Precisa poder dizer: eu te amo e também tenho limites”, diz Caldato. Incentivar o outro a buscar ajuda profissional não é abandono, é cuidado de verdade.
Sinais de que o relacionamento está adoecendo quem fica
Alguns sinais são mais evidentes: sentir-se pior consigo mesmo desde que está no relacionamento, se anular frequentemente para evitar conflito, sentir medo de falar o que pensa ou estar sempre na ponta dos pés tentando não errar. Outros são mais sutis: ansiedade crescente, sono prejudicado, perda de interesse em atividades antes prazerosas, afastamento gradual de amigos e família.
Um exercício proposto pelo psiquiatra: imagine como você se sentia antes desse relacionamento. Se a distância entre esse você e o de agora é grande, e não foi o tempo que mudou, foi o relacionamento, isso merece atenção.
Como identificar e sair de um relacionamento tóxico
Relacionamentos tóxicos raramente começam tóxicos. Eles se instalam aos poucos, e quando a pessoa percebe, já está tão dentro que perdeu a perspectiva. Caldato aponta alguns marcadores clínicos: padrão de humilhação disfarçada de brincadeira, controle de amizades, dinheiro, tempo e vestuário, e um ciclo que se repete: tensão, explosão, reconciliação intensa, calmaria e recomeço.
Sair é um processo, não um evento. O que ajuda é nomear o que está acontecendo sem minimizar, ter alguém de confiança fora do relacionamento e buscar acompanhamento psicológico antes de sair, não depois. A saída sem suporte aumenta o risco de retorno e de adoecimento. “Sair de um relacionamento que adoece não é fraqueza. É o ato mais corajoso e mais saudável que existe”, conclui o especialista.
FONTE:
Higor Caldato (@drhigorcaldato), psiquiatra, especialista em psicoterapias, transtornos alimentares e obesidade. Sócio do Instituto Nutrindo Ideais (@nutrindoideais).
Médico psiquiatra pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ/IPUB), residência em psicoterapias com ênfase em Transtornos Alimentares e Obesidade também pela universidade carioca, através do Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares do IPUB e do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (GOTA – IPUB/IEDE).




