Especialista alerta para o aumento da procura por diagnóstico na vida adulta e reforça que avaliação médica é essencial para diferenciar o transtorno de outras condições

O número de pessoas que procuram atendimento médico por suspeita de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) aumentou significativamente nos últimos anos. A popularização do tema nas redes sociais, aliada ao excesso de informações, à ansiedade e ao uso intenso de telas, tem levado muitos adultos a acreditar que possuem o transtorno. No entanto, especialistas alertam que nem toda dificuldade de concentração significa um diagnóstico de TDAH.

Segundo a médica neurologista e neurofisiologista Maria Teresa Fernandes Castilho Garcia, professora doutora na Faculdade de Medicina da Unoeste, o transtorno possui critérios diagnósticos bem estabelecidos e deve ser identificado por profissionais capacitados.

“O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, de origem predominantemente genética, que se manifesta desde os primeiros anos de vida. Na grande maioria dos casos, ele não surge na fase adulta, embora muitas pessoas só recebam o diagnóstico quando adultas”, explica.

Estudos internacionais estimam que cerca de 10% das crianças e entre 4% e 5% dos adultos apresentem o transtorno. No Brasil, ainda não existem levantamentos nacionais que determinem sua prevalência.

Desatenção nem sempre significa TDAH

A professora explica que existem três apresentações clínicas do transtorno: a forma predominantemente desatenta, a predominantemente hiperativa/impulsiva e a forma combinada.

Na apresentação desatenta, os sintomas incluem dificuldade para manter o foco, facilidade para se distrair, problemas de organização, esquecimento frequente e dificuldade para concluir tarefas. Já na forma hiperativa predominam inquietação constante, impulsividade, dificuldade para esperar a própria vez e excesso de fala.

Essas características podem comprometer o desempenho escolar, acadêmico, profissional e os relacionamentos sociais, especialmente quando não são reconhecidas e tratadas.

“Muitas pessoas desenvolvem estratégias ao longo da vida para compensar essas dificuldades. Porém, quando as responsabilidades aumentam, principalmente na vida adulta, os sintomas passam a interferir significativamente no trabalho, nos estudos e na vida social”, afirma.

Excesso de telas pode confundir o diagnóstico

Um dos principais desafios atuais, segundo Maria Teresa, é diferenciar o TDAH de sintomas provocados pelo estilo de vida contemporâneo.

“O excesso de telas, a sobrecarga de informações, o estresse e a ansiedade podem causar dificuldade de concentração e até agravar sintomas em quem já possui TDAH. Por isso, é fundamental fazer uma avaliação criteriosa antes de concluir que a pessoa apresenta o transtorno”, fala.

Ela destaca que crianças, adolescentes e adultos estão expostos a uma rotina marcada por estímulos rápidos e constantes, o que reduz a capacidade de manter a atenção em atividades que exigem maior concentração, como leitura e estudos prolongados.

Além disso, transtornos de ansiedade, depressão e outras condições emocionais frequentemente apresentam sintomas semelhantes aos do TDAH, exigindo uma investigação clínica cuidadosa.

Uso indiscriminado de medicamentos preocupa especialistas

Outro fenômeno observado nos últimos anos é o aumento do uso de medicamentos psicoestimulantes por pessoas sem diagnóstico confirmado. Segundo a neurologista, a busca por maior produtividade tem levado muitos estudantes e profissionais a recorrerem a medicamentos sem indicação médica.

“Vivemos uma cultura em que todos querem alto desempenho e resultados rápidos. Isso contribuiu para um crescimento importante no uso dessas medicações, muitas vezes por pessoas que não têm TDAH”.

Ela lembra que esses medicamentos podem provocar efeitos colaterais e só devem ser utilizados após avaliação médica criteriosa.

Diagnóstico é clínico e tratamento envolve diferentes profissionais

O diagnóstico do TDAH é essencialmente clínico e pode ser realizado por neurologistas, neuropediatras ou psiquiatras. A partir da avaliação, o tratamento é individualizado conforme o perfil de cada paciente.

Além dos medicamentos, quando indicados, a psicoterapia desempenha papel fundamental no desenvolvimento de estratégias para organização, planejamento, controle da impulsividade e melhoria da atenção.

Também é comum tratar condições associadas, como ansiedade e depressão, quando presentes. Para Maria Teresa, um dos maiores equívocos sobre o transtorno é associá-lo à falta de esforço.

“Existe um mito muito comum de que pessoas com TDAH são preguiçosas. Isso não é verdade. Trata-se de uma condição neurobiológica que interfere na capacidade de atenção, organização e controle dos impulsos, causando prejuízos reais na qualidade de vida”, comenta.

A especialista reforça que o aumento da procura por diagnóstico exige responsabilidade tanto dos profissionais quanto da população. “O mais importante é que as pessoas procurem avaliação especializada. Nem toda dificuldade de concentração é TDAH. É preciso diferenciar sintomas relacionados ao estresse, à ansiedade e ao estilo de vida daqueles que realmente preenchem os critérios diagnósticos do transtorno. Somente assim é possível oferecer o tratamento mais adequado e melhorar a qualidade de vida dos pacientes”, sinaliza.

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