Por Pedro Gurgel

Nas últimas décadas, a cirurgia vascular passou por uma das transformações mais significativas da medicina. A incorporação das técnicas endovasculares, a evolução dos dispositivos médicos e o fortalecimento da medicina baseada em evidências modificaram profundamente a forma de diagnosticar e tratar as doenças vasculares.

Durante muitos anos, os principais avanços da especialidade surgiam nos Estados Unidos e na Europa e, posteriormente, eram incorporados à prática clínica brasileira. A colaboração internacional continua sendo essencial para o desenvolvimento da medicina, mas hoje o cenário é diferente. O Brasil deixou de ser apenas um receptor desse conhecimento para atuar também como produtor de evidências científicas, formador de especialistas e participante ativo das discussões que moldam a evolução da cirurgia vascular.

Essa mudança resulta de diferentes fatores. O envelhecimento da população, o aumento da incidência de doenças crônicas e o amadurecimento dos serviços especializados criaram um ambiente favorável ao avanço técnico e científico da especialidade.

Os reflexos desse processo são percebidos na assistência aos pacientes. Entre 2008 e 2019, o Sistema Único de Saúde (SUS) realizou 129.424 procedimentos de revascularização para o tratamento da doença arterial periférica dos membros inferiores, com média de aproximadamente 10.785 intervenções por ano. Além de demonstrar a relevância da cirurgia vascular na rede pública, esses números evidenciam a experiência acumulada pelos serviços brasileiros no tratamento dessa condição (WOLOSKER, N. et al. Epidemiological analysis of lower limb revascularization for peripheral arterial disease over 12 years on the public health system in Brazil. Jornal Vascular Brasileiro, v. 21, e20210215, 2022).

Os dados também revelam uma importante mudança na prática clínica. No mesmo período, os procedimentos endovasculares passaram a representar 65,49% das revascularizações realizadas no SUS e apresentaram mortalidade hospitalar de cerca de 1,2%, enquanto as cirurgias abertas registraram aproximadamente 5,0%. Esses resultados demonstram a consolidação das abordagens minimamente invasivas na rotina dos serviços brasileiros, acompanhando uma tendência observada internacionalmente (WOLOSKER, N. et al., 2022).

O amadurecimento da especialidade também se expressa na capacidade de produzir conhecimento científico. Em 2022, a Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV) publicou a Diretriz de Doença Arterial Periférica Obstrutiva de Membros Inferiores, elaborada por especialistas brasileiros com base nas melhores evidências disponíveis. A publicação representa um importante marco para a padronização do diagnóstico e do tratamento da doença no país e reforça a contribuição da comunidade científica nacional para a qualificação da assistência vascular (SOCIEDADE BRASILEIRA DE ANGIOLOGIA E DE CIRURGIA VASCULAR. Diretriz de Doença Arterial Periférica Obstrutiva de Membros Inferiores. 2022).

Esse amadurecimento também é percebido na inserção internacional da produção científica brasileira. Nos últimos anos, especialistas brasileiros passaram a liderar a elaboração de diretrizes baseadas em evidências publicadas em inglês e acessíveis à comunidade científica global. Paralelamente, a formação em cirurgia vascular no Brasil passou a ser objeto de estudos internacionais, refletindo o reconhecimento da qualidade dos programas de treinamento e da experiência acumulada pelos serviços brasileiros. A presença cada vez mais ativa da SBACV em alguns dos principais congressos mundiais da especialidade reforça esse movimento e demonstra que o país deixou de apenas incorporar conhecimento para também participar de sua construção (KANSAL, N. et al. Brazilian Society of Angiology and Vascular Surgery Guidelines for Endovascular Treatment of Peripheral Arterial Disease. Jornal Vascular Brasileiro, 2024; RIBEIRO, M. S. et al. Vascular surgery training in Brazil: evolution, challenges and future perspectives. Journal of Vascular Surgery: Vascular Insights, 2025; SOCIEDADE BRASILEIRA DE ANGIOLOGIA E DE CIRURGIA VASCULAR. Participação institucional da SBACV no VEITHsymposium 2025).

Ao longo da minha trajetória acompanhando o desenvolvimento de tecnologias médicas, ficou evidente a mudança de posição ocupada pelo Brasil nesse cenário. Continuamos aprendendo com centros internacionais de excelência, mas hoje também produzimos conhecimento, participamos de pesquisas multicêntricas, formamos especialistas e contribuímos de maneira consistente para o aperfeiçoamento da prática clínica.

O futuro da cirurgia vascular será impulsionado por recursos como inteligência artificial, impressão tridimensional, dispositivos personalizados e análise avançada de dados. Mais importante do que incorporar essas inovações será utilizá-las para ampliar a segurança dos procedimentos, aumentar sua precisão e expandir o acesso dos pacientes aos tratamentos mais modernos.

Persistem desafios relacionados ao acesso às novas tecnologias, ao financiamento da pesquisa clínica e à distribuição de recursos especializados pelo país. Ainda assim, a evolução observada na assistência, na incorporação tecnológica e na produção científica demonstra que a cirurgia vascular brasileira alcançou um novo estágio de maturidade. Hoje, além de acompanhar os avanços internacionais, o Brasil participa ativamente da construção do conhecimento que orienta o futuro da especialidade.

Pedro Gurgel é fisioterapeuta e head comercial e negócios em equipamentos e dispositivos médicos com mais de 18 anos de atuação no mercado de dispositivos e tecnologias médicas. Especialista em estratégia comercial, expansão de negócios e desenvolvimento de operações na área da saúde, construiu carreira em empresas nacionais e multinacionais do setor médico-hospitalar, com atuação no Brasil e na América Latina. Atualmente, lidera projetos ligados à tecnologia médica, escoliose e dispositivos de alta complexidade, unindo visão clínica, gestão e desenvolvimento de mercado.

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