Pesquisa com 1.125 pacientes de sete países, apresentada na ESMO 2026, aponta lacunas no acesso à medicina de precisão e mostra que o sequenciamento de nova geração identifica mais alterações relevantes para a escolha da terapia
A medicina de precisão permite identificar características genômicas de um tumor e, a partir delas, avaliar quais tratamentos podem ser mais adequados para cada paciente. Apesar dos avanços nessa área, o acesso aos exames capazes de mapear múltiplas alterações genômicas simultaneamente ainda é limitado na América Latina. Um estudo internacional apresentado no Congresso Europeu de Oncologia Médica (ESMO 2026), em Madri, na Espanha, identificou que apenas 20,5% dos pacientes com câncer de pulmão avançado avaliados na pesquisa realizaram o sequenciamento de nova geração (NGS) antes de iniciar o tratamento.
Batizado de ReaLuNGS, o estudo analisou dados de 1.125 pacientes em sete países latino-americanos, incluindo o Brasil, e investigou como os testes moleculares são utilizados na prática clínica e de que maneira podem contribuir para a escolha do tratamento. Os resultados mostram que a realização de uma análise genômica mais abrangente pode ampliar a identificação de alterações tumorais relevantes e ajudar a direcionar terapias personalizadas.
O NGS, sigla em inglês para sequenciamento de nova geração, é uma tecnologia que permite investigar simultaneamente dezenas ou centenas de genes relacionados ao câncer. Diferentemente de testes convencionais que analisam alterações específicas, essa abordagem oferece uma visão mais ampla das características moleculares do tumor. Com essas informações, a equipe médica pode identificar alterações para as quais existem medicamentos direcionados, além de avaliar outras possibilidades terapêuticas.
Na pesquisa, 85,3% dos pacientes submetidos ao NGS tiveram uma avaliação molecular considerada suficiente, segundo os critérios do estudo, que incluíam a investigação dos biomarcadores EGFR, ALK, ROS1 e BRAF. Entre aqueles avaliados por testes convencionais, esse índice foi de 38,4%. Além disso, o estudo identificou alterações genômicas potencialmente acionáveis nos genes EGFR, ALK, ROS1 e BRAF em 40,3% dos pacientes submetidos ao NGS, em comparação com 29,6% daqueles avaliados por testes convencionais. Essa diferença de aproximadamente 11 pontos percentuais reforça a importância de uma investigação molecular mais abrangente para identificar alterações que podem orientar a escolha de terapias-alvo. A análise também mostrou que o sequenciamento abrangente permitiu identificar mais alterações genômicas para as quais já existem tratamentos específicos disponíveis, sem atrasar o início da terapia.
“Conhecer as características moleculares do tumor é fundamental para ampliar as possibilidades de tratamento do câncer de pulmão. Quando investigamos várias alterações genômicas ao mesmo tempo, aumentamos a capacidade de identificar alvos para os quais existem terapias específicas. O desafio é garantir que essa investigação aconteça no momento adequado, antes da definição do tratamento inicial, para que as informações possam efetivamente orientar a decisão clínica”, afirma o Dr. Breno Jeha Araújo, oncologista clínico e responsável por genômica clínica na OC Medicina de Precisão Oncoclínicas.
Por que conhecer o perfil genômico do tumor faz diferença?
O câncer de pulmão não é uma doença única. Mesmo quando os tumores se desenvolvem no mesmo órgão e apresentam características semelhantes nos exames de imagem, eles podem ter alterações genômicas diferentes, que influenciam seu comportamento e sua resposta aos medicamentos.
Algumas dessas alterações funcionam como motores do crescimento tumoral. Quando identificadas, podem permitir o uso de terapias-alvo, desenvolvidas para interferir em mecanismos específicos das células cancerígenas. Em determinados cenários, esses medicamentos oferecem uma alternativa à quimioterapia convencional ou permitem sequenciar diferentes estratégias de tratamento.
A investigação molecular abrangente, portanto, ajuda a reduzir o risco de que alterações relevantes não sejam identificadas porque os testes realizados foram direcionados a um número limitado de genes. Isso não significa que todos os pacientes terão uma alteração tratável ou que o NGS determine sozinho a melhor terapia, mas amplia o conjunto de informações disponíveis para a equipe médica.
Para Rodrigo Dienstmann, diretor médico da OC Medicina de Precisão da Oncoclínicas, os resultados colocam em evidência uma questão central para a oncologia contemporânea: a necessidade de aproximar o desenvolvimento tecnológico da realidade do atendimento.
“A medicina de precisão só cumpre seu potencial quando o resultado do exame chega a tempo de influenciar a escolha terapêutica. Não basta a tecnologia existir: precisamos garantir que os pacientes tenham acesso ao teste, que as amostras sejam adequadamente coletadas e processadas e que os resultados estejam disponíveis antes de uma decisão importante sobre o tratamento. Esse conjunto de etapas é essencial para transformar conhecimento molecular em benefício clínico”, destaca Dienstmann.
O desafio vai além de oferecer o exame
A ampliação do acesso ao NGS envolve desafios que vão além da disponibilidade da tecnologia. A qualidade e a quantidade do material coletado na biópsia, a conservação das amostras, a infraestrutura dos laboratórios, a cobertura pelos sistemas de saúde e o tempo necessário para a liberação dos resultados podem influenciar a realização e a utilidade dos testes.
Os resultados do ReaLuNGS reforçam a importância de superar essas barreiras na América Latina. Embora o sequenciamento abrangente tenha permitido uma avaliação molecular mais completa e a identificação de um maior número de alterações com tratamentos específicos disponíveis, apenas 20,5% dos pacientes avaliados realizaram o exame antes do início da terapia. Ampliar esse acesso pode ajudar a garantir que mais pessoas tenham suas características tumorais investigadas desde o início do cuidado, favorecendo decisões terapêuticas mais bem informadas.
Para Rodrigo Dienstmann, o avanço da medicina de precisão depende de integrar o diagnóstico à jornada de tratamento. “O próximo passo é fazer com que a inovação seja acessível e incorporada de maneira consistente ao cuidado. Os avanços no diagnóstico molecular só terão impacto amplo se conseguirmos reduzir as barreiras que impedem sua utilização, especialmente no início do tratamento. Ampliar esse acesso é uma oportunidade de tornar as decisões terapêuticas mais bem informadas e de aproximar a medicina de precisão das necessidades reais dos pacientes”, conclui o oncologista.
Sobre a Oncoclínicas&Co
A Oncoclínicas&Co, um dos principais grupos dedicados ao tratamento do câncer no Brasil, oferece um modelo hiperespecializado e inovador voltado para toda a jornada oncológica do paciente. Presente em 136 unidades em 47 cidades, a companhia reúne um corpo clínico formado por mais de 1.750 médicos especializados na linha de cuidado do paciente oncológico. Com a missão de democratizar o acesso à oncologia de excelência, realizou cerca de 537 mil tratamentos nos últimos 12 meses. Com foco em pesquisa, tecnologia e inovação, a Oncoclínicas segue padrões internacionais de alta qualidade, integrando clínicas ambulatoriais a cancer centers de alta complexidade, potencializando o tratamento com medicina de precisão e genômica. A companhia mantém iniciativas globais, como a Boston Lighthouse Innovation, nos Estados Unidos. Integra ainda o índice IDIVERSA da B3, reforçando seu compromisso com a diversidade. Saiba mais em: www.oncoclinicas.com.







